Congresso Estadual: espíritas analisam panorama da prática mediúnica
Por Eliana Haddad
O Congresso Estadual de Espiritismo da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo – USE, realizado de 19 a 21 de junho na capital, abordou assuntos relevantes para a atualidade dos estudos e atividades práticas realizadas nas casas espíritas, revelando através de palestras, painéis e rodas de conversa um panorama de como anda hoje o espiritismo no Brasil e no mundo, tendo como um dos principais eixos a prática mediúnica, segundo as orientações de Allan Kardec.
Iniciando a comemoração dos seus 80 anos, a USE apresentou um cenário marcado pelas conquistas alcançadas pelos centros espíritas paulistas, como a disseminação de ideias que hoje já não causam tanto estranhamento como no início da divulgação da doutrina espírita. A existência do mundo espiritual, a reencarnação, a imortalidade da alma, a necessidade do progresso moral, por exemplo, são temas que já fazem parte de qualquer discurso sobre espiritualidade. Muitas das informações compartilhadas vêm de palestras, cursos, reuniões e orientações nas casas espíritas, um trabalho de amor, tantas vezes silencioso, e de boa capilaridade, que faz o espiritismo ser conhecido em qualquer lugar onde se estabeleça um pequeno grupo espírita.
Conquanto tantas conquistas estabelecidas ao longo do tempo, todo grande encontro é oportunidade de avaliar questões como, por exemplo, se a doutrina espírita está sendo preservada em suas bases, se os seus conceitos já teriam sido devidamente assimilados tendo por referência as obras de Allan Kardec.
Com seriedade, didática e rigor, Kardec enfrentou os preconceitos científicos, religiosos e filosóficos, fundamentado na lógica, no bom senso e no método, revelando não somente a existência do mundo espiritual, mas como funcionava e como exercia sua influência sobre nós. Foi assim que a comunicação entre os espíritos e a mediunidade foram reconhecidas como leis da natureza, integrando uma nova ciência que, como o próprio Allan Kardec já alertava, não poderia mesmo ser aprendida em poucas horas. Não era apenas uma fresta que se abria na história do conhecimento humano, mas um desafiador horizonte a ser pesquisado.
Mediunidade com Kardec
Foi com esse histórico que, durante sua participação no evento estadual, o físico Cosme Massi, doutor em filosofia e fundador do Instituto de Divulgação Espírita Allan Kardec – IDEAK, fez várias considerações sobre mediunidade e comunicação com os espíritos, comentando sobre a necessidade de o espírita realmente estudar O livro dos médiuns, como manual indispensável para a prática mediúnica segura, e a coleção da Revista Espírita (1858–1869), como laboratório prático de Allan Kardec, contendo a trajetória e os bastidores desse novo conhecimento.
Destacou, por exemplo, que as evocações, abordadas por Kardec em O livro dos médiuns, foram deixadas de lado nas práticas espíritas, embora a Revista Espírita apresente diversos exemplos de como ele as utilizava regularmente, em momentos únicos que permitiam esclarecimentos, consolo e aproximação entre o mundo espiritual e os encarnados, de uma forma natural, fossem eles amigos, familiares, pensadores, pesquisadores, desconhecidos até.
Reforçou ao público a necessidade de que a mediunidade, faculdade natural humana, orgânica, seja regida por critérios seguros, alinhando-se a prática mediúnica espírita com o que está nas obras de Allan Kardec, evitando-se práticas estranhas ao espiritismo, possibilitando a disciplina moral do médium e o discernimento contra mistificações.
Massi lembrou que a mediunidade não é virtude nem privilégio. “É um instrumento de trabalho e uma oportunidade de reajuste moral”, citou, acrescentando que sem estudo é como um barco sem leme. “Fica à mercê das correntes do orgulho e da ilusão”, alertou.
“Na prática mediúnica, o bom senso deve ser o primeiro filtro de qualquer comunicação espiritual. Não basta receber mensagens bonitas; é preciso analisar a coerência e a utilidade doutrinária daquilo que é transmitido”, avaliou.
Outro ponto por ele abordado foi a importância da sintonia do grupo mediúnico nesse intercâmbio. “O grupo mediúnico não é lugar para satisfazer curiosidades ou buscar respostas para a vida material, mas um laboratório de caridade e aprendizado espiritual. A harmonia de uma reunião mediúnica não se constrói na hora da sessão, mas no dia a dia dos seus participantes, na vivência da fraternidade e do respeito mútuo”, destacou.
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A programação das rodas de conversa no congresso trouxe conclusões importantes sobre a prática mediúnica hoje, apresentando eixos temáticos que suscitaram reflexões:
- Qualidade nas reuniões mediúnicas: Foco na preparação das equipes, no ambiente vibracional, na pontualidade, na sobriedade e na fidelidade aos postulados de Allan Kardec.
- Animismo: Compreensão do animismo nas reuniões mediúnicas não como ‘fraude’, mas como a participação da própria alma do médium no fenômeno, exigindo estudo, acolhimento e educação da faculdade.
- Mediunidade na era digital: Reflexão sobre os impactos e desafios da superexposição em redes sociais, a vulgarização do fenômeno mediúnico online e a necessidade de se preservar o caráter ético e reservado das reuniões sérias.
- Coerência entre o discurso e a prática: Necessidade de alinhar a prática mediúnica do centro espírita com o que está nas obras de Allan Kardec, evitando práticas estranhas ao espiritismo.
- Contribuições de André Luiz: A visão complementar sobre o funcionamento do plano espiritual e os mecanismos da mediunidade deve estar em sintonia com a base teórica de Allan Kardec.
Evocação e manifestação espontânea
“Os espíritos podem comunicar-se espontaneamente, ou acudir ao nosso chamado, isto é, vir por evocação.”
Permissão divina
“O espírito evocado atende sempre ao chamado que se lhe dirige? [...] Há circunstâncias em que não pode fazê-lo.”
Quem pode ser evocado
“Pode-se evocar todos os espíritos, seja qual for o grau em que se encontrem na escala espírita.”
Livre-arbítrio e condições do espírito
“A faculdade de evocar todo e qualquer espírito não implica para este a obrigação de estar à nossa disposição.”
Fórmulas e rituais
“Não há fórmulas para as evocações. Os espíritos são sensíveis ao pensamento e não às palavras. [...] O nome de Deus não constitui freio para todos os espíritos, mas contém muitos deles.”
Seriedade e propósito
“Os espíritos sérios só vão às reuniões em que reina a harmonia e onde o objetivo é nobre e moral.”
Identidade e mistificações
“A evocação nominal não oferece uma garantia absoluta da identidade do espírito. A linguagem e a elevação dos sentimentos são os únicos critérios seguros para julgar a identidade.”
Allan Kardec em O livro dos médiuns (Segunda Parte, cap. 25, Das evocações).