A vida de Jorge Rizzini é contada em documentário
Por Izabel Vitusso
A trajetória de Jorge Rizzini (1924-2008) é o tema central do novo documentário produzido pelo jornalista e documentarista Oceano Vieira de Melo. O longa-metragem Jorge Rizzini: jornalista, escritor e médium resgata a história desse destemido paulistano que, a partir de 1950, tornou-se uma das vozes mais contundentes na defesa e na propagação da doutrina espírita no Brasil.
Nascido em família espírita, Rizzini herdou o compromisso com a causa de seu pai, que já atuava no movimento no final do século 19. Como jornalista e escritor, não apenas narrou a história do espiritismo, mas a moldou através de sua franqueza e coragem. Em uma época de grande preconceito, o jornalista utilizou sua vivência na mídia para enfrentar embates doutrinários, frequentemente guiado pelo bordão “Os tempos são chegados”.
Sua amizade com o escritor José Herculano Pires foi um pilar fundamental em sua vida. Jorge Rizzini foi o biógrafo de Herculano e seu sucessor na presidência do Clube dos Jornalistas Espíritas de São Paulo. A admiração era mútua; Herculano chegou a registrar que, em momentos polêmicos envolvendo o espiritismo, a fidelidade e franqueza de Rizzini serviam de consolo aos verdadeiros seguidores de Allan Kardec. Além de Herculano, o jornalista foi também próximo de Chico Xavier e um dos maiores defensores do médium Zé Arigó, acompanhando suas cirurgias espirituais por uma década e atuando como sua testemunha quando foi acusado de prática ilegal da medicina, pelas cirurgias espirituais que realizava.
Vivências e depoimentos
A faceta humana e vibrante de Jorge Rizzini é capturada com sensibilidade por quem conviveu com ele. A jornalista Eliana Haddad recorda com carinho o início de sua relação com o escritor na Federação Espírita do Estado de São Paulo (FEESP), em 2001, onde editava o Jornal Espírita. “Ele era um ‘menino travesso’ que anunciava sua chegada com batidas fortes na porta da redação, sentava-se para contar histórias sobre o movimento espírita e logo convidava os colegas para um café com pão de queijo. Tinha uma sede inesgotável de ‘viver e acontecer’".
Sua filha, Maria Angélica Rizzini, em entrevista ao Correio Fraterno na passagem dos 100 anos de nascimento de seu pai, trouxe uma visão particular sobre a dedicação exaustiva de Rizzini, que trabalhava pelo menos 12 horas por dia, mergulhado em seu escritório. “O som ‘tec tec’ ininterrupto de sua máquina de escrever era o sinal de que ninguém, exceto sua esposa Iracema Sapucaia, deveria interrompê-lo.” Angélica relembrou a percepção extrassensorial aguçada do pai e sua fé inabalável, que o permitia realizar feitos improváveis, como obter permissão da Banda Sinfônica da Polícia Militar para gravar músicas mediúnicas ou lotar o Theatro Municipal de São Paulo com o Festival de Música Mediúnica.
Legado literário e mediúnico
A obra do escritor é vasta e diversificada. Escreveu contos, peças teatrais, artigos e biografias de vultos como Monteiro Lobato e Eurípedes Barsanulfo. Entre seus livros mais influentes estão O caso Arigó, Materializações de Uberaba e a premiada obra Beco dos aflitos. Outro destaque é o livro Escritores e fantasmas, fruto de dez anos de pesquisa sobre fenômenos espirituais na vida de autores célebres como Rui Barbosa, Monteiro Lobato, Victor Hugo e Leon Tolstói.
Sua mediunidade também se manifestou de forma singular na música. Rizzini psicografou e inspirou dezenas de composições inéditas de nomes como Noel Rosa, Ary Barroso e até compositores líricos italianos, que resultaram em discos e DVDs que comprovavam a imortalidade da alma através da arte.
O voo final
Fiel ao lema "Kardec em primeiro lugar!", Rizzini manteve seu vigor até o fim. Em 2008, durante uma viagem familiar à Argentina, sofreu um infarto. Após vinte dias em uma UTI em Buenos Aires, onde continuava a comentar sobre os espíritos que via passar, manifestou o desejo de retornar ao seu país. Jorge Rizzini desencarnou em pleno voo de volta ao Brasil, fechando o ciclo de uma vida dedicada integralmente à verdade que tanto defendeu.
Vale a pena assistir ao documentário e conhecer um pouco mais sobre histórias de pessoas que nos antecederam e ajudaram a pavimentar a estrada que trilhamos hoje no espiritismo.
O filme terá exibição especial, no dia 18 de julho, das 9:30h às 12h, no Cinema Reserva Cultural, na Av. Paulista, 900, em São Paulo, SP.