A dor da incompreensão sobre o juízo final
Por Daniel Salomão Silva*
A crença em um julgamento final, em que bons e maus serão separados definitivamente em algum momento, está presente em quase todas as tradições cristãs, judaicas e islâmicas, logo, entre grande parte da população mundial. Entre os desencarnados, que podem ainda carregar o pensamento religioso de sua última encarnação, medos ou expectativas sobre esse grande ‘juízo’ também são perceptíveis, o que demanda uma orientação mais compreensiva de nossa parte nas reuniões mediúnicas. Tratar dessa orientação é o objetivo deste artigo.
Entre os cristãos, textos do Antigo e do Novo Testamento têm sido interpretados nessa direção desde a Antiguidade. Das visões de Daniel ao mais elaborado Apocalipse de João, o entendimento de que haverá um juízo final também deriva dos Evangelhos, como do texto abaixo:
Quando o Filho do Homem vier em sua glória, e todos os anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória. E serão reunidas em sua presença todas as nações e ele separará os homens uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos, e porá as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda. Então dirá o rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, recebei por herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo. (...) Em seguida, dirá aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno preparado para o diabo e para os seus anjos. (...) E irão estes para o castigo eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna. (Mateus 25:31-34, 41 e 46, tradução da Bíblia de Jerusalém)
O entendimento pelas bases espíritas
Embora o texto bíblico seja claro quanto à rigidez dessa separação realizada pelo Filho do Homem – para os cristãos, o próprio Jesus –, e quanto à eternidade do ‘castigo’ destinado aos injustos, não é essa a leitura espírita. Para Allan Kardec, uma compreensão madura e respeitosa da Bíblia não pode estar isenta de uma abordagem crítica, que vá além de uma leitura literal e considere contextos e culturas.1 Além disso, para nós, os próprios preceitos espíritas devem ser a chave de leitura desses textos.2
Nesse caso, o codificador aponta para o caráter alegórico de certas frases e para a ingenuidade do público, que não permitia a Jesus muito afastamento das ideias religiosas correntes. Estaria reservado “para o futuro a verdadeira interpretação de suas palavras e dos pontos sobre os quais não podia explicar-se claramente”.3 Em outra obra, Kardec destaca também a incoerência de se conceber um único julgamento universal, que pusesse fim à humanidade e tornasse inútil toda a criação divina, ou seja, que “uma obra tão imensa se tenha produzido para tão pouco tempo e em benefício de seres votados, em sua maioria, aos suplícios eternos”.4
Além disso, esse pensamento não se concilia com a bondade e misericórdia infinitas de Deus, apresentado a nós por Jesus como um bom pai, “que deixa sempre aberta uma porta ao arrependimento e que está pronto sempre a estender os braços ao filho pródigo”.5 Logo, se, ao lado do sentido figurado, o Cristo assinalou como ideias dominantes “a da felicidade reservada ao justo e da infelicidade que espera o mau”,6 só podemos entender essa infelicidade como pedagógica e temporária, pois “a duração do castigo está subordinada à melhoria do espírito culpado”,7 sempre possível.
Os diálogos nas reuniões mediúnicas
As referências anteriores trazem resumidamente a base da argumentação espírita perante os desencarnados que sofrem por acreditar num juízo incompassivo e definitivo.8 Em alguns casos, espíritos comunicantes relatam ter medo de uma sentença condenatória já a caminho. Esses, além de terem essa crença religiosa, se reconhecem culpados perante uma justiça divina implacável e, naturalmente, temem o inferno eterno. Outros relatam até já terem sido condenados, por se reconhecerem em regiões de sofrimento no plano espiritual, às quais pensam estar presos para sempre.
Para esses, todo o carinho e compreensão devem estar na base de qualquer argumentação. Respeitando sua posição religiosa, importante é que fraternalmente a questionemos, apontando os preceitos espíritas citados. Nosso Deus é um deus de misericórdia, que, se por sua justiça perfeita, permite que colhamos o sofrimento que plantamos, deseja a nossa redenção.9 Todos os que sofrem estão sob cuidadosa observação, serão acolhidos no momento oportuno, auxiliados em sua recuperação e orientados ao recomeço, ao redirecionamento de suas vidas no mundo espiritual e em nova vida física.
Outros desencarnados relatam decepção por verem aqueles que odeiam não terem sido ainda condenados, ou esperam ansiosamente pelo ‘juízo final’ que lhes fará justiça. Nesse caso, há a mesma incompreensão do mecanismo divino. Contudo, idêntica misericórdia de que fazemos jus está disponível aos que erram, aos de que não gostamos ou que nos fizeram mal. No que estiverem realmente equivocados, serão cobrados pela própria consciência, mas terão também suas ferramentas de despertamento. Embora o perdão seja a recomendação de Jesus, propô-lo ao comunicante imediatamente não é o mais adequado, mas, sim, uma construção desse perdão, que passa pela interrupção de qualquer influência negativa sobre o inimigo, pela adesão a alguma ocupação útil no plano espiritual e pelo exercício da compaixão. Esse caminho, pavimentado com a ajuda dos bons espíritos, o conduzirá ao perdão.
Por fim, essa decepção também pode derivar da própria situação que enfrentam, que deveria ser ‘melhor’, dada sua aparente fidelidade às leis divinas durante a vida física. Relatam, por vezes, não terem encontrado o ‘céu’ que mereciam ou que lhes foi prometido. Talvez tenham sido condenados injustamente pelo ‘juízo’, como comentamos. Esse pensamento se deve novamente à incompreensão da proposta cristã, muitas vezes exposta pelas diversas tradições como um conjunto de práticas, desempenhos, títulos e aparências, desconectadas da vivência real do Evangelho. Nessa situação, os comunicantes devem ser lembrados de que não estão desamparados, de que encontrarão esse ‘céu’ após aceitarem efetivamente o convite de Jesus, com todo o apoio da equipe espiritual e abraçando novas oportunidades de ação.
O despertar e a consciência
Em verdade, o único juízo a que estamos submetidos é o da própria consciência, onde estão escritas as leis de Deus.10 Esse juízo ocorre quando estamos encarnados, ao despertarmos da anestesia moral que nos aplicamos. As diversas experiências da vida, de amor, de reflexão, mas também de sofrimentos, são os motivadores desse despertamento. Ainda encarnados, podemos fazer um caminho diferente. Do mesmo modo, um juízo também ocorre quando desencarnamos e percebemos equívocos e sucessos da vida que deixamos. Mais lúcidos e amparados, podemos refletir e planejar correções de rumo.
Em todos os casos, a proposta espírita consoladora é de eterna oportunidade de recomeço. Não há portas definitivamente fechadas ou sentenças inapeláveis.
Bibliografia
1 O evangelho segundo o espiritismo, c. 1; c. 14, i. 6; c. 23 etc.
2 O evangelho segundo o espiritismo, intro, I; O livro dos espíritos, q. 628.
3 O evangelho segundo o espiritismo, c. 15, i. 3; A gênese, c. 17, i. 65.
4 A gênese, c. 17, i. 64.
5 A gênese, c. 17, i. 66.
6 O evangelho segundo o espiritismo, c. 15, i. 3.
7 O céu e o inferno, 1. p., c. 7, “Código penal da vida futura”, i. 13.
8 Não abordado neste artigo, o processo de migração de espíritos também pode ser relacionado a ideia de ‘juízos”, embora sempre parciais (Allan Kardec, A gênese, c. 17, i. 67).
9 O céu e o inferno, 1. p., c. 7, “Código penal da vida futura”.
10 O livro dos espíritos, q. 621.
* Doutorando em ciência da religião, pesquisador dos textos bíblicos e da mediunidade. Coautor dos livros Jesus segundo o espiritismo e Diálogos espíritas (Ed. Primavera).