Qualidade na formação de leitores e o entendimento do espiritismo
Por Marco Milani*
Os dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, mostram que a taxa de analfabetismo no Brasil, pela primeira vez, ficou abaixo de 5%. Ainda assim, cerca de 8,4 milhões de brasileiros com 15 anos ou mais não sabem ler nem escrever.
Para o IBGE, é alfabetizada a pessoa capaz de ler e escrever um bilhete simples. O indicador mede, portanto, o analfabetismo absoluto. Não avalia se o indivíduo compreende textos mais extensos, acompanha raciocínios ou utiliza a leitura para adquirir conhecimentos com autonomia.
Parte da queda decorre da substituição geracional, pois as gerações mais jovens tiveram maior acesso à escolarização, enquanto o analfabetismo absoluto permanece concentrado entre os idosos. O país ampliou a alfabetização elementar, mas não necessariamente formou leitores capazes de compreender conteúdos complexos.
Essa diferença aparece quando os dados são comparados aos resultados do Indicador de Alfabetismo Funcional, o INAF. Segundo sua edição mais recente, 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais. São cerca de 40 milhões de pessoas que reconhecem palavras, frases ou informações simples, mas apresentam limitações importantes para interpretar textos e utilizar a leitura, a escrita e a matemática no cotidiano.
Mais preocupante é sua permanência. O analfabetismo funcional era 29% da população avaliada em 2018 e permaneceu no mesmo patamar em 2024. Embora tenha ocorrido melhora nos primeiros anos deste século, os avanços praticamente estagnaram a partir de 2009.
Diminui-se o número de pessoas incapazes de ler e escrever um bilhete simples, sem que se melhore, de maneira consistente, a capacidade de compreender textos, interpretar ideias e desenvolver raciocínios mais elaborados. O país avançou na redução do analfabetismo absoluto, mas permanece estagnado na qualidade do alfabetismo.
Ler palavras não significa necessariamente compreender ideias. Uma pessoa pode percorrer uma página e não identificar sua tese central, distinguir uma afirmação de sua justificativa ou perceber suas consequências. Nessas condições, a leitura isolada deixa de ser instrumento suficiente de instrução.
Compreensão do espiritismo
O problema merece atenção especial no movimento espírita. O espiritismo exige reflexão, análise comparada e estudo sistemático. Obras como O livro dos espíritos e O que é o espiritismo foram organizadas por meio de questões, objeções e esclarecimentos progressivos. Sua compreensão pressupõe capacidade de acompanhar raciocínios, interpretar conceitos abstratos e relacionar ideias.
Não basta colocar uma obra de Allan Kardec nas mãos de alguém e supor que o simples ato de ler produzirá automaticamente conhecimento doutrinário. Essa expectativa ignora diferenças de escolaridade, repertório cultural, experiência leitora e capacidade de interpretação. Também deve ser considerada a distância histórica e linguística, pois as obras fundamentais foram escritas na França do século 19.
Essa constatação não justifica substituir Kardec por resumos, romances ou obras mais fáceis, nem simplificar a doutrina. Ao contrário, quanto maiores forem as dificuldades de compreensão, mais necessária será a mediação pedagógica que possibilite o contato efetivo com as fontes fundamentais.
A educação espírita requer método, planejamento e progressão. O coordenador precisa esclarecer o vocabulário, contextualizar as questões, distinguir conceitos, formular perguntas e verificar se as ideias foram compreendidas.
A leitura orientada é importante. Em vez de apenas recomendar que o participante leia sozinho uma obra extensa, o grupo pode examinar trechos selecionados, identificar a questão discutida, acompanhar os argumentos e relacionar a passagem a outras partes da obra.
A participação ativa, as perguntas e o confronto racional de interpretações desenvolvem habilidades que a simples recepção de informações não produz. Ensinar espiritismo não consiste apenas em transmitir respostas, mas em favorecer a capacidade de examinar ideias.
Fé com raciocínio
A doutrina espírita valoriza a fé raciocinada. Entretanto, não se pode exigir raciocínio sem criar condições para que ele seja desenvolvido. Em uma sociedade na qual quase um terço da população adulta apresenta limitações funcionais de leitura, a instituição que apenas aconselha “leia Kardec” pode imaginar que promove o estudo, mas a compreensão poderá ser variável.
A redução do analfabetismo absoluto é uma conquista, mas está longe de resolver o problema educacional brasileiro. Para o movimento espírita, os dados constituem um chamado à responsabilidade. Preservar a centralidade das obras fundamentais não significa apenas disponibilizá-las, mas criar condições para que sejam compreendidas. A leitura continua indispensável, porém a formação de leitores atentos exige orientação, diálogo, método e mediação pedagógica.
Referência
Ação Educativa & Conhecimento Social – Estratégia e Gestão (2025). Indicador de Alfabetismo Funcional: Inaf Brasil 2024 – Resultados. https://alfabetismofuncional.org.br/metodologia.
*Marco Milani é economista, professor da Unicamp e presidente da USE Regional de Campinas.