Autotransformação: o exercício diário e silencioso de cada um
Por Umberto Fabbri*
Transformar-se não é tarefa de um instante, mas obra de muitas existências. Essa é uma das lições mais profundas que o espiritismo nos revela: o ser humano não é feito ou desfeito em uma única vida, mas talhado, pouco a pouco, através de sucessivas provas, quedas e reerguimentos. Autotransformação, sob essa luz, não significa tornar-se outra pessoa, mas despir-se, camada por camada, daquilo que nos afasta de nossa essência espiritual – o orgulho, o egoísmo, o apego às coisas que não perduram.
O evangelho segundo o espiritismo oferece, no capítulo dedicado aos “pobres de espírito”, uma chave essencial para esse processo. Allan Kardec explica que a expressão de Jesus não se refere aos destituídos de inteligência, mas aos humildes.
A verdadeira transformação começa, então, não pelo acúmulo de conhecimento ou de conquistas exteriores, mas pelo reconhecimento sincero de que ainda temos muito a aprender.
É o orgulho, aliás, o maior obstáculo interno a esse caminho. Segundo o texto, “o orgulho é a catarata que tolda a visão” – ele nos impede de enxergar com clareza tanto os próprios defeitos quanto a grandeza do que ainda podemos nos tornar. Transformar-se exige, antes de tudo, coragem para olhar para dentro sem as lentes deformadas da vaidade.
O espiritismo ensina que essa jornada não se limita a uma única existência. Ao contrário: “Os que, numa existência, ocuparam as mais elevadas posições, descem, em existência seguinte, às mais ínfimas condições, desde que os tenham dominado o orgulho e a ambição.”
A reencarnação, nesse sentido, não é apenas doutrina metafísica – é o próprio mecanismo pedagógico da autotransformação. Cada vida é uma nova oportunidade de corrigir o que ficou por fazer, de retomar o fio da própria evolução moral exatamente onde o deixamos.
E essa correção, longe de ser um castigo, é obra de um amor paciente: “Deus, médico hábil, corrige primeiramente o orgulho. Ele não deixa ao abandono aqueles de seus filhos que se acham perdidos, porquanto sabe que cedo ou tarde os olhos se lhes abrirão.”
A ideia de um Deus que espera, que não força, mas conduz suavemente pelas próprias consequências dos nossos atos, é central para compreender por que a autotransformação, no espiritismo, é sempre processo – nunca imposição.
Transformar-se, à luz dessa doutrina, é um exercício diário e silencioso: é escolher o último lugar em vez do primeiro, é servir em vez de ser servido, é buscar a verdade com humildade em vez de julgá-la já possuída. Como nos lembra o próprio Evangelho, “todo aquele que se eleva será rebaixado, e todo aquele que se abaixa será elevado” – não como ameaça, mas como lei natural do progresso espiritual: só cresce verdadeiramente quem aceita, primeiro, reconhecer o quanto ainda precisa crescer.
No fim, autotransformar-se não é deixar de ser quem somos, mas aproximarmo-nos, vida após vida, daquilo que já somos em essência: espíritos em caminho, chamados a substituir o orgulho pela humildade, o egoísmo pela caridade, e a ilusão da autossuficiência pela confiança serena em uma lei de amor que nunca nos abandona.
* Profissional de marketing, Umberto Fabbri é orador e escritor com diversos livros publicados.