A dificuldade de trabalharmos a crítica
Por Pedro Camilo de Figueirêdo*
Pensar criticamente no movimento espírita desde sempre tem sido um grande desafio. De um lado, pela compreensão equivocada de que a crítica encerra sempre um mau juízo, é depreciativa, o que seria contrário à velha sentença do “não julgueis”; de outro, porque boa parte das críticas que chegam até nós quase sempre é banhada em adjetivações que por vezes extrapolam as ideias e ferem as pessoas por detrás delas.
Para além do equívoco de acreditar que o “não julgueis” deve levar a uma anulação da capacidade crítico-reflexiva do espírita (quando, na verdade, é um convite a pensar as questões por todos os ângulos possíveis e a se abster de juízos morais, favoráveis ou desfavoráveis), parte da aversão do espírita à crítica talvez seja fruto da indevida interpretação do diálogo entre Kardec e “O crítico” em O que é o espiritismo.
No livro, Kardec cria um diálogo com um candidato a crítico não só para refutar parte das objeções que, à época, eram levantadas contra o espiritismo, como também para apontar os caminhos da boa crítica, aquela que ele mesmo praticava.
Crítica com conhecimento de causa
Em meio ao diálogo, após esclarecer que um pensamento crítico que se pretenda sério precisa partir do conhecimento de causa, ou seja, da apreciação completa do objeto da crítica, Kardec faz uma afirmação muito útil para nossa reflexão: “É somente por extensão que a palavra criticar se tornou sinônima de censurar; em sua acepção própria e segundo a etimologia, ela significa julgar, apreciar. Então, a crítica pode ser aprobativa ou desaprovadora”.
No meio espírita, a crítica vem sendo tomada como ‘sinônima de censura’, especialmente quando feita em face de ideias e atos de lideranças, mediúnicas ou não, que se tornaram referência para o movimento majoritário. Entretanto, a crítica precisa ser, sim, retomada “segundo a etimologia”, implicando apreciação nascida da reflexão madura e necessária, que nos leva a crescer.
Apesar disso, nem sempre quem ocupa o lugar da crítica consegue encerrá-la nos limites do razoável e do bom senso. Kardec, por exemplo, quando criticou o catolicismo ao desconstruir o “Fora da Igreja não há salvação” para propor o “Fora da caridade [do amor em ação] não há salvação”, fê-lo com senso de justiça, cauteloso com a forma e as pessoas, prendendo-se às ideias, ainda que para destituí-las.
Entre nós, os espíritas, é necessário fazer o mesmo exercício: criticar as ideias, desconstruir conceitos e preconceitos sem, contudo, destituir as pessoas e as instituições do papel que ocupam no movimento, ainda que, em nosso sentir, esses papéis não sejam plenamente legítimos.
Concordância do ensino dos espíritos
Tomemos como exemplo o papel que médiuns e mediunidades assumiram entre nós. Na visão kardeciana, a presença da mediunidade não serve de termômetro para aferir o avanço moral de ninguém. Além disso, Kardec teve o cuidado de centrar a validação das ideias espíritas no filtro da concordância do ensinamento de espíritos diversos por médiuns diversos e que não se conhecessem ou influenciassem, evitando que ‘a verdade’ dependesse, exclusivamente, da palavra de uma só pessoa, encarnada ou desencarnada.
Ao arrepio desse pensar e agir criticamente, o movimento espírita passou a girar em torno de médiuns e fenômenos, que não só se tornaram os principais motes para fundação de centros e obras sociais, como também ocupam o ‘lugar do sagrado’ (e, por isso, intocável, não sujeito à crítica) no imaginário coletivo dos espíritas.
Contudo, por mais que uma pessoa seja caridosa, imbuída de boa-fé e capaz de realizar prodigiosos fenômenos mediúnicos, ela não deixa de ser humana e, por isso, incompleta. Como tal, está sujeita a erros, a realizar interpretações equivocadas sobre a realidade espiritual, a divulgar ideias que podem ser nocivas para ela e para a coletividade.
Ante essa possibilidade, cabe-nos não só o direito, mas sobretudo o dever de “julgar, apreciar”, como lembra Kardec, emitindo opiniões desaprovadoras das ideias e das atitudes, quer sejam veiculadas através de livros, quer sejam por meio de falas públicas. Isso, contudo, sempre respeitando as pessoas e suas histórias.
Nesse sentido, criticar não somente será saudável, como necessário e útil, especialmente se, possuindo ascendência sobre grande número e pessoas, as ideias e atitudes equivocadas tenham potencial para confundir e prejudicar a coletividade.
Criticar é legítimo, e para que a crítica seja boa, tem de ser legítima também, discutindo ideias e atitudes, sempre com respeito e consideração aos envolvidos.
*Escritor e editor da Lachâtre e da editora Mente Aberta.