Memórias de um suicida: romance de formação para a vida imortal

Por Abel Sidney*

Publicado pela primeira vez em 1954, Memórias de um suicida é uma das obras mais importantes da literatura mediúnica. Psicografado por Yvonne do Amaral Pereira e atribuído ao espírito Camilo Cândido Botelho – heterônimo espiritual de Camilo Castelo Branco, escritor português do século 19 –, o livro transcende o rótulo de romance espiritualista e se firma como verdadeiro tratado doutrinário e filosófico sobre a vida após o suicídio.

O enredo se inicia no chamado Vale dos Suicidas, região sombria do mundo espiritual, onde o protagonista e outros desencarnados enfrentam as repercussões do ato extremo. Este local, longe de ser ‘lugar de punição’, é extensão de um hospital, onde os recém-chegados, traumatizados, começam a ser cuidados.

A obra, no entanto, não se limita à descrição das dificuldades de readaptação dos suicidas à vida espiritual: ela conduz o leitor a uma jornada de reeducação espiritual por meio da Colônia Correcional Maria de Nazaré, onde eles, na condição de espíritos imortais e filhos de Deus, recebem tratamento, reforçam seus aprendizados e, mais adiante, reencarnam para retomar suas vivências em outra existência.

Com o estilo vigoroso e o lirismo próprio da pena camiliana, Memórias é enriquecido pela intervenção doutrinária de Léon Denis, que lhe confere profundidade filosófica e rigor espírita. A estrutura narrativa envolve o leitor e o que é exposto dialoga com temas muito atuais, como os transtornos mentais, a obsessão, ao lado da esperança e da necessidade de termos empatia e compaixão em face da nossa e da fragilidade alheia.

O leitor desta obra não pode se esquecer da relevância da médium Yvonne Pereira e do papel da literatura como instrumento de consolo e prevenção. Podemos, portanto, considerar o Memórias um romance de formação para a vida imortal – a despeito do impacto que a morte autoprovocada, voluntária ou induzida, nos traz. É obra que mostra a possibilidade do recomeço, conforme o que vimos aprendendo sobre a misericórdia divina!

Por ser um livro de 500 a 600 páginas, conforme a edição, não é leitura de ocasião, ligeira, exigindo dedicação e esforço perseverante. Os benefícios alcançados, garantimos, serão muito expressivos.

Memórias de um suicida, obra que já salvou muitas vidas, segue atual, desafiando paradigmas religiosos, filosóficos e psicológicos ao propor que nenhuma dor é definitiva e que a vida – sempre – prossegue.


* Abel Sidney é escritor, educador, colaborador da causa espírita em Porto Velho e trabalha no Centro Espírita Irmão Jacob. Autor de Lições de um suicida: um estudo do clássico Memórias de um suicida (Allan Kardec) e coautor de O mistério da cabana (FEB).