O que a investigação revela sobre a história do espiritismo
Por Eliana Haddad
Allan Kardec, médiuns, personagens da codificação, adulterações, congressos, biografias, documentos franceses e até a maneira como o movimento espírita construiu sua própria memória. Esses são alguns pontos que aguçaram a curiosidade do engenheiro Carlos Seth Bastos, que vem divulgando através de livros* e redes sociais conteúdos importantes, que não se limitam a contar histórias novas sobre Kardec, mas também questionam fontes que acabaram por estabelecer mitos e informações imprecisas que se consolidaram na história do espiritismo.
Nessa entrevista, Seth explica como e por que o CSI do Espiritismo (Codification Séances Investigation), que nasceu em 2018 como uma página do Facebook voltada a divulgar imagens e registros históricos do espiritismo, acabou se transformando em um robusto projeto de historiografia espírita.
Acompanhe.
O que os documentos históricos podem nos revelar sobre a história que aprendemos do espiritismo?
Existem documentos históricos de várias naturezas. Manuscritos de acervos publicados no Portal Allan Kardec da Universidade Federal de Juiz de Fora, MG, nos ajudam a entender vários aspectos do período Rivail (de 1804 até 1856), Kardec (de 1857 até 1869) e pós-Kardec (a partir de 1870).
Registros de estado civil, encontrados nos Arquivos Municipais de Paris e de outras comunas francesas nos revelam idades, profissões, endereços e vínculos familiares e afetivos de personagens relevantes para o espiritismo. Foi assim que descobrimos a idade das irmãs Baudin, que não eram jovenzinhas em 1857.
Livros, periódicos e imagens da época, disponíveis na Biblioteca Nacional da França e em outras bibliotecas ao redor do mundo, nos auxiliam a entender questões doutrinárias, a contextualizar questões editoriais etc. Graças ao exemplar da 5ª edição de 1869 de A gênese, encontrado na Biblioteca da Universidade de Neuchâtel, foi possível corrigir uma série de equívocos sobre sua autenticidade.
Documentos diversos nos Arquivos Nacionais da França nos ajudam a contar com mais precisão a história do espiritismo, como por exemplo as atas da Sociedade Anônima, fundada por Amélie Boudet e outros espíritas após a desencarnação de Kardec.
Como alguém que não começou a carreira como historiador chegou a uma investigação tão minuciosa da história do espiritismo?
A engenharia contribuiu para meu amor à precisão. As séries de investigação forense, como a franquia CSI, me inspiraram na utilização de métodos robustos de pesquisa, com cruzamento de informações, prevenção de armadilhas como o anacronismo ou com homônimos e, principalmente, acesso a fontes primárias de informação. Mas, sem dúvida, o principal gatilho foi a pobre historiografia espírita, apesar de sua riqueza histórica.
Em que momento você percebeu que havia informações sobre Kardec e os primeiros espíritas que precisavam ser revistas?
Quando me dei conta de que conhecíamos a identidade de muitos médiuns e espíritos que atuavam no Brasil, mas que o pouco que sabíamos dos personagens do período de Kardec eram apenas tradições e lendas.
Como é realizado esse trabalho de pesquisa e como saber se um documento é mais confiável que outro?
Tudo depende do que buscamos. Para descobrir a identidade de um personagem, encarnado ou desencarnado, precisamos primeiramente descobrir os indícios já disponíveis sobre ele, para depois garimparmos informação em jornais e cartórios. Estes registros são mais confiáveis do que referências feitas por pessoas em cartas ou periódicos. Por exemplo, o registro de nascimento de Kardec é de 04/10/1804, informando que ele nasceu na noite anterior, portanto em 03/10/1804. O próprio Kardec, numa nota manuscrita com alguns detalhes biográficos, escreveu apressada e equivocadamente 03/10/1803. Como ela foi corrigida para ser usada em 1865 por Lachâtre, em um verbete de seu dicionário, confirmando a data do registo em cartório, é essa que prevalece, ou seja, 03/10/1804.
O que fazer quando a documentação histórica contradiz algo que o movimento espírita aprendeu durante décadas? Poderia dar um exemplo?
Nos curvar diante dos fatos. Além das irmãs Baudin, com 28 e 30 anos em 1857, e da autenticidade da 4ª edição de O céu e o inferno e da 5ª edição de A gênese, que já mencionamos, poderíamos destacar, entre dezenas de outros exemplos, que Kardec sempre tratou sua esposa como minha querida Amélie, minha boa Amélie, mas nunca como Gabi.
Qual foi a descoberta que mais o surpreendeu em suas pesquisas?
São inúmeras, e como um avô não tem um neto preferido, não conseguiria falar de uma mais surpreendente. Poderíamos mencionar as várias questões financeiras enfrentadas por Rivail, sua atuação e detenção na Guarda Nacional de Paris ou os grandes desafios de Kardec em 1865, com vários deserções e problemas de saúde que se prolongaram até a sua morte. Em 31 de janeiro de 1865 ele teve uma grave doença que o impediu de sair do próprio quarto por mais de um mês. Teve uma recaída por volta de abril e estava extenuado. No mesmo ano os médiuns sr. D’Ambel, sr. Alfred Didier e sua grande amiga sra. Costel abandonaram a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. A maior parte das comunicações da segunda parte do livro O céu e o inferno foi obtida através da sra. Costel. Não são muitos os que honram o esforço de Kardec, deixando de estudar parte da sua produção nesse período difícil: 3ª edição definitiva de O evangelho segundo o espiritismo, 1ª e 4ª edição definitiva de O céu e o inferno, 1ª e 5ª edição definitiva de A gênese, 1ª e edição definitiva de Caracteres da revelação espírita, 6ª edição definitiva de O que é o espiritismo e edição definitiva do Resumo da lei dos fenômenos espíritas, além das edições mensais da Revista Espírita.
Por que algumas informações incorretas sobre Kardec conseguiram permanecer durante décadas no movimento espírita? Por que alguns documentos ficaram ocultos ou ainda não haviam sido descobertos?
Informações incorretas permaneceram porque faltavam pesquisadores e acesso à informação, hoje, em grande parte já digitalizada na França e no Brasil. Contudo, informações incorretas incorreções continuam permanecendo, porque muitos expositores espíritas não se empenham muito para se manter atualizados em relação a estas pesquisas. Além disso, documentos permaneceram e grande parte ainda permanece oculta por falta de engajamento dos responsáveis pelos acervos. Estimo que apenas 20% dos acervos de Canuto Abreu, Hubert Forestier e do museu AKOL estejam disponíveis na UFJF.
A pesquisa histórica pode modificar a imagem que os espíritas têm de Kardec sem diminuir sua importância como codificador?
Não há dúvida de que, derrubando mitos, como o de que ele tenha sido médico, nos aproximamos muito mais da humanidade do sistematizador do espiritismo. Isso não diminui a importância do seu trabalho, que prevalece sobre a imagem da pessoa que muitos querem ‘sacralizar’.
O que você encontrou sobre os médiuns da codificação que considera particularmente importante?
Descobrimos a identidade de personagens importantes como o sr. D’Ambel. Ele foi vice-presidente da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, secretário particular de Allan Kardec e único médium conhecido do espírito Erasto. Por volta de 1865, como já mencionamos, ele abandonou Kardec, tirando sua própria vida algum tempo depois.
Por que personagens secundários da história do espiritismo são tão importantes para compreender a codificação?
O filósofo estadunidense Ralph Waldo Emerson disse algo que acho verdadeiro: “Em outras palavras, não existe propriamente história, apenas biografia.” Conhecer as qualidades e defeitos dos espíritos e médiuns deste período, nos ajuda a contextualizar e entender melhor as comunicações recebidas por estes, bem como o método utilizado pelo próprio Kardec para seleção das mensagens. O espírito Georges, por exemplo, foi pintor e professor de desenho da médium sra. Costel. Ele desencarnou em 1857, depois do lançamento da 1ª edição de O livro dos espíritos. Seu nome quando encarnado era Louis Henri Georgè, que algumas vezes apareceu mal traduzido como Jorge em O evangelho segundo o espiritismo.
Por que o Facebook acabou se tornando um espaço tão importante para esse trabalho?
Por comodidade. Foi meu laboratório para compartilhar minhas descobertas, assim como a Revista Espírita foi para Kardec. No Facebook criamos as páginas facebook.com/HistoriaDoEspiritismo, facebook.com/CienciaDoEspiritismo e facebook.com/FilosofiaDoEspiritismo.
O que gostaria que o leitor espírita aprendesse ao entrar em contato com suas pesquisas?
Gostaria que os espíritas aprendessem a valorizar a história do espiritismo, evitando equívocos, boatos e omissões.
Depois de tantos anos investigando Kardec e os primeiros espíritas, o que mudou na sua própria compreensão do espiritismo?
Meus primeiros quatro livros foram principalmente sobre história e jornalismo científico. Eles serviram de base para meu último livro, mais reflexivo, onde faço diversas provocações através de uma análise crítica da obra de Kardec. Como registrei neste livro, “me vejo agora como alguém que, por opção, incorporou ao seu estilo de vida, mesmo que com alguma adaptação, alguns dos conceitos espíritas”.
* Autor dos livros: Espíritos sob investigação: resgatando parte da história, Espiritismo sob investigação: avaliando sua progressividade, Biografias de Kardec sob investigação: corrigindo imprecisões e Além da fé raciocinada: uma análise crítica da obra de Kardec (CCDPE-ECM), além de A gênese de Allan Kardec: da polêmica aos fatos, com Adair Ribeiro e Luciana Farias (Ed. Primavera).