Jovens inovam em forma e cores as histórias da Revista Espírita

Por Eliana Haddad

Quando Allan Kardec lançou a Revista Espírita em 1858, em Paris, criou um laboratório vivo da doutrina, repleto de crônicas e casos práticos. No entanto, apesar de sua riqueza histórica, esse vasto acervo de mais de 4.500 páginas ainda permanece restrito às prateleiras de poucos espíritas.

Pensando em tratar o distanciamento da linguagem do século 19, um grupo de jovens em São Paulo resolveu desenvolver um projeto diferenciado, adaptando e ilustrando histórias selecionadas da Revista. O Correio Fraterno entrevistou Ana Beatriz Duran e Nathan Tonini, jovens do time que desenvolve este projeto inovador, trocando a posição de meros espectadores para se tornarem pontes de transmissão desse conhecimento para o público infantojuvenil nos centros espíritas, mantendo viva a essência do espiritismo, plenamente conectada com o futuro. O time é coordenado por Mônica Etes (USE São Paulo) e por Stella Segatti (USE Regional Grande ABC), que responde também algumas perguntas.

Como surgiu a ideia de resgatar especificamente as crônicas e casos da Revista Espírita?
Stella Segatti –
A inspiração nasceu de um episódio muito especial publicado na Revista Espírita de julho de 1858. Um assinante, Marius M., escreveu a Allan Kardec pedindo que fossem publicados os desenhos feitos por Victorien Sardou sobre o planeta Júpiter, pois acreditava que as ilustrações tornariam o conteúdo mais compreensível. Kardec respondeu que esse também era o desejo de muitos leitores, mas explicou que a impressão de imagens era muito cara e que os próprios espíritos haviam indicado que aquele ainda não era o momento.

Esse relato nos tocou profundamente. Percebemos que o desejo de tornar a Revista Espírita mais visual já existia desde a época de Kardec. Sentimos que hoje temos a oportunidade de concretizar esse antigo anseio, utilizando os recursos atuais para aproximar esse valioso patrimônio doutrinário das novas gerações, sem perder a fidelidade ao conteúdo original.

Foco nas novas gerações

Por que vocês sentiram que este era o momento de trazer esses textos para o formato ilustrado e focado nas crianças e jovens?

Stella Segatti – A Revista Espírita reúne um conteúdo extremamente rico, mas sua linguagem e o contexto histórico podem representar um desafio para muitos leitores, especialmente crianças e jovens. Ao mesmo tempo, percebemos que as histórias continuam abordando temas profundamente atuais e podem contribuir de maneira significativa para a evangelização espírita.

Hoje dispomos de recursos tecnológicos e artísticos que permitem apresentar esse conteúdo de forma mais acessível, preservando sua essência. O formato ilustrado cria uma ponte entre a linguagem do século 19 e a realidade das novas gerações, despertando o interesse pela obra de Kardec e mostrando que seus ensinamentos permanecem vivos, atuais e capazes de dialogar com diferentes públicos.

Como foi a escolha das histórias e da linguagem visual adotada?

Ana Beatriz – A seleção das histórias foi baseada em casos com potencial educativo e com possibilidade de dialogar com os temas trabalhados nas evangelizações. Cada texto é sempre cuidadosamente analisado para que a adaptação simplifique a linguagem sem alterar a mensagem ou o contexto original.

O trabalho acontece de forma colaborativa. A equipe responsável pela adaptação pesquisa a história, reescreve o texto em uma linguagem mais acessível e propõe as cenas que serão ilustradas. Em seguida, a equipe de ilustração transforma essas descrições em imagens, procurando construir uma narrativa visual envolvente e fiel ao período histórico.

No início, todo esse processo era realizado manualmente, desde o desenho até a pintura e o acabamento. Hoje utilizamos também ferramentas de inteligência artificial como apoio técnico na composição das imagens, com a supervisão da equipe, buscando manter uma estética coerente com a época retratada. As ilustrações não substituem a criação humana; elas são resultado do trabalho dos artistas do projeto, que utilizam a tecnologia como uma ferramenta complementar.

Como vocês equilibram a fidelidade aos ensinamentos originais de Kardec com a necessidade de uma leitura leve e simples?

Nathan Tonini – Esse é, talvez, o maior compromisso do projeto. Nosso objetivo é adaptar, e não modificar. Procuramos tornar a leitura mais clara e acessível, principalmente para crianças e jovens, mas sempre preservando a essência, o contexto e os ensinamentos presentes.

Cada adaptação recebe um cuidado especial para que a simplificação da linguagem não descaracterize o pensamento de Allan Kardec nem altere a mensagem doutrinária. Assim, buscamos oferecer uma leitura agradável, mantendo total respeito à obra original.

Trabalho colaborativo somando tarefas

Como é a dinâmica de trabalho na pesquisa, escrita e ilustração?

Ana Beatriz – O projeto é desenvolvido de forma totalmente colaborativa e 100% online, reunindo principalmente jovens, com o apoio de adultos que contribuem em diferentes etapas.

Nathan Tonini – O trabalho começa com a pesquisa e compreensão do texto original. Depois, a equipe de adaptação simplifica a linguagem e organiza a narrativa, definindo também as cenas que melhor representam cada momento da história. Essas orientações servem de base para a equipe de ilustração, responsável por transformar o texto em imagens.

Ana Beatriz – Todo o processo é construído em conjunto, unindo pesquisa, escrita, ilustração e revisão para que cada história preserve seu conteúdo e, ao mesmo tempo, desperte o interesse dos leitores.

Qual o maior desafio técnico ou doutrinário que vocês enfrentaram até agora no desenvolvimento do conteúdo?

Nathan Tonini – O maior desafio é transformar textos escritos há mais de 160 anos em uma linguagem acessível ao público atual, sem perder sua riqueza, seu contexto histórico e sua essência doutrinária.

Ana Beatriz – Existe também um desafio relacionado à própria dinâmica do projeto. Como o trabalho é realizado de forma voluntária, manter equipes constantes e engajadas exige dedicação permanente. Por isso, estamos sempre buscando novos colaboradores para participar dessa frente, para que mais histórias possam ser adaptadas.

A maior recompensa

Que tipo de retorno vocês têm recebido dos pais, evangelizadores e das próprias crianças? Algum relato marcou o grupo de forma especial?

Ana Beatriz – O retorno tem sido extremamente positivo. Diversas histórias já foram utilizadas em encontros e atividades de evangelização, mostrando que esse material consegue dialogar com diferentes faixas etárias e gerar reflexões profundas.

Um exemplo marcante foi a utilização da história “Suicídio por amor” em uma atividade sobre compromisso afetivo com jovens e adultos. Ver textos publicados por Kardec há mais de um século e meio provocando discussões tão atuais mostra a força e a atualidade da obra.

Como foi lançar a edição impressa de 1858?

Ana Beatriz – Foi uma experiência inesquecível. Depois de tanto trabalho realizado no ambiente virtual, ver a revista impressa nas mãos dos leitores foi motivo de grande emoção para toda a equipe.

Stella Segatti – A publicação começou a alcançar diferentes regiões do estado de São Paulo e do Brasil e continua sendo divulgada em diversos eventos espíritas. Mas talvez o momento mais gratificante tenha sido ver crianças e jovens encantados com o livro, folheando as páginas e descobrindo as histórias por meio das ilustrações.

Essa aproximação confirma que a linguagem visual realmente cumpre seu papel de despertar o interesse pela doutrina espírita. Foi a confirmação de que todo o esforço havia valido a pena.

Se Allan Kardec lesse a Revista Espírita adaptada e ilustrada hoje, o que vocês acham que ele diria sobre o trabalho?

Nathan Tonini – Acho que Kardec se alegraria ao perceber que suas obras continuam inspirando novas gerações e encontrando novas formas de alcançar as pessoas.

Ana Beatriz – Hoje, esse trabalho já ultrapassa fronteiras. Além da edição impressa, o projeto integra iniciativas internacionais que estão levando a Revista Espírita adaptada e ilustrada para outros países por meio de traduções para diferentes idiomas.

Stella Segatti – Talvez a maior satisfação fosse perceber que um conteúdo escrito na França do século 19 continua vivo, despertando reflexões, formando novos leitores e contribuindo para a educação moral de crianças, jovens e adultos.

E, quem sabe, ao contemplar esse esforço coletivo, Allan Kardec pudesse resumir tudo em uma de suas próprias convicções: “Progredir sempre, tal é a lei.”