O trabalho espírita humanitário nas ruas e em presídios femininos

Por Eliana Haddad

Sérgio Tadeu Diniz é advogado, palestrante e atuante no movimento espírita em São Paulo. Sua trajetória de mais de 30 anos, ligada ao Grupo Espírita Os Mensageiros, é marcada não só pela tradicional distribuição de mensagens impressas para divulgação do espiritismo – já são quase 1,7 bilhão de mensagens distribuídas –, mas por sua atividade constante na assistência social na instituição AME – Amigos Mensageiros Espíritas, junto à população em vulnerabilidade, liderando ações de acolhimento a pessoas em situação de rua e apoio humanitário em presídios femininos da capital paulista.

Sua dedicação ao voluntariado foi inspirada em seu convívio com Chico Xavier, cuja filosofia de simplicidade e amor ao próximo moldou sua atuação no trabalho da assistência social espírita. 

Sérgio relata os desafios, as dores e alegrias dessas delicadas relações, analisando a mudança de olhar na atualidade para o exercício da caridade e da cidadania.

Da convivência com Chico Xavier, qual foi a principal lição que o incentivou a olhar a vulnerabilidade social com o desejo de agir?

Chico sempre inspirou a todos nós e a maioria das casas foram formadas com base em seu acolhimento e orientação. Seu convite para a caridade a nós, espíritas, é intenso. Depois de grandes estudos junto à Federação Espírita do Estado de São Paulo e em oportunidade de visitas com o médium, percebi que minha tarefa estava ligada diretamente aos irmãos mais necessitados. Chico também me inspirou através de um sonho, dizendo que eu deveria atender às pessoas nas ruas sem qualquer discriminação: fossem crianças indo à escola, ou trabalhadores em vias públicas, o que foi um incentivo muito forte, fazendo com que que eu começasse com a distribuição de dez pãezinhos com margarina, no bairro de Santa Cecília, no centro de São Paulo. Não por acaso, encontrei na região dois amigos, Luiz Afonso Del Rio e Helio Zylberlicht, fazendo assistência e entregando chocolate e café quentes nas manhãs frias da cidade. Foi quando combinamos de integrar as nossas tarefas. Juntos, nos sediamos embaixo do próprio viaduto. Isso na década de 1990, e até hoje realizamos esse trabalho com os moradores de rua, quatro vezes por semana, na Praça da República.

Para você, quais as principais diferenças entre o cenário das ruas na década de 1990 e o que o grupo enfrenta hoje?

Tínhamos problemas psiquiátricos e envolvimento de consumo de químicos e de álcool. O problema com a drogadição hoje é muito maior, por conta de novos entorpecentes. Outra diferença que se destaca é a idade. Antes, o público que atendíamos tinha em torno de 40 a 60 anos. Hoje, são jovens de 20 a 30 anos que estão se servindo da nossa ajuda.

Como romper a barreira da invisibilidade e fazer com que uma pessoa em situação de rua se sinta verdadeiramente enxergada e acolhida?

É a amizade constante através do trabalho que se realiza. Nesses anos todos, eles foram ampliando sua confiança em nós, pela constância de nossa presença e por sentirem que estamos ali sem qualquer interesse a não ser servir. Eles se aproximam, falam sobre suas derrotas, situações financeiras, suas dificuldades e as de seus familiares. A gente aprende com eles e eles com a gente. Vamos criando laços.

Há alguma história de transformação que você guarde com especial carinho?

Temos o caso de um senhor que não queria pegar fila de forma alguma em nossos trabalhos na distribuição. Criava problema, era sempre um tumulto, até que foi devagarzinho aceitando. No começo, ele furava um pouquinho as filas, mas depois foi permanecendo, até conseguir esperar a sua vez. Depois desapareceu. Passados alguns meses, ele retornou dizendo que o tempo nas filas o fez entender que para conseguir emprego, teria que aceitar esperar também. Tinha uma profissão nobre, mas perdia sempre as oportunidades de trabalho por lhe faltar a paciência.

Temos muitas outras histórias, algumas tristes, envolvendo suicídio, mas também boas lembranças, que demonstram a proteção espiritual dos benfeitores, em casos, por exemplo, de pessoas desequilibradas ou com atitudes um pouco mais rudes, às vezes moradores da região, por se sentirem amedrontados com relação às pessoas que vivem em condições precárias por perto. Graças à proteção espiritual, nunca tivemos dificuldades relevantes, nas ruas ou na penitenciária.

Falando sobre apoio humanitário em presídio, como o grupo trabalha o acolhimento dessas mulheres?

O trabalho no presídio é muito interessante. A gente adentra os pavilhões femininos do presídio, que fica na zona Norte de São Paulo, e atende a seis pavilhões. A cada semana vamos a um deles, onde somos identificados pelos jalecos que somos espíritas, assim como fazem outros grupos de outras denominações religiosas. As que se interessam pelo assunto e as que já nos conhecem se aproximam. Então conversamos, falamos da doutrina, escutamos seus lamentos e os problemas, entregamos livros e mensagens espíritas.

Como é o olhar do espírita dentro de um presídio, o acolhimento das dores femininas? Como têm sido as buscas dessas mulheres por uma nova chance?

As mulheres ficam muito sensibilizadas. Quando conseguem enxergar o caminho pelo qual estavam trafegando, buscam corrigir-se, e desejam se regenerar com muito mais empenho do que os homens. Talvez até por isso tenha mais homens presos do que mulheres.

É um trabalho muito especial. O grupo de assistência a presídios femininos conta com a participação de muitas empresas, com políticas de oferta de empregos para elas, o que possibilita, além do trabalho, terem diminuídas as penas que cumprem. Temos lá jovens, adultas, senhoras, cada uma com suas necessidades e histórias. Mas todas com uma demanda comum extremamente presente: a necessidade da escuta. Quando conversamos, elas desabafam, contam o que enfrentam e sentem-se extremamente acolhidas, o que acaba sendo um grande alívio para elas.

Como o espírita pode atuar melhor no sistema prisional? As ideias espíritas são bem aceitas?

Para entrar no presídio é preciso ter um cadastro, que exige documentos pessoais e atestado de antecedentes criminais. Feito o cadastro e saindo a autorização, temos o acesso semanal, podendo-se ali permanecer por cerca de duas horas. Durante este período conversamos, ouvimos, falamos de forma muito acessível sobre a doutrina, para que possam entender a realidade espiritual da vida e possam, de uma certa forma, ir em busca de novas diretrizes para as suas vidas. Sabemos o quanto a doutrina espírita tem o potencial de consolar, de libertar, quando há o entendimento de quem somos, por que vivemos e da misericórdia divina.

Diante de realidades que tocam tanto o nosso coração, como a miséria e o cárcere, como não desanimar também perante as falhas da justiça humana?

Não é incomum nós termos falhas, porque existem milhares de processos e alguns levam muito tempo para ter um andamento, uma solução. Muitas de nossas irmãs que estão detidas lá não estão por crimes altamente violentos, mas por ações associadas a furtos, estelionatos, coisas menores, por assim dizer. Existem também aquelas com crimes ligados a situações mais comprometedoras. Elas se sentem bastante tristes e aborrecidas, muitas vezes pela lentidão dos processos. Não têm advogados e muitas dependem do benefício do advogado estadual, o que acaba retardando a sua saída. É uma questão, penso, que no futuro a gente possa ajudar a resolver. Falhas acontecem, mas a doutrina espírita entende que, na verdade, na Terra não existem vítimas. Todos nós, enfim, temos alguma associação com aquilo que estamos vivendo e aprendendo. Mas nos traz também exemplos do que podemos fazer para diminuir a dor daquele que passa por provação.

Como você analisa o papel da caridade material versus o perigo da acomodação, da não emancipação? O conceito de “fazer o bem” estaria passando por alguma ressignificação?

Eu penso que sim. Hoje nós temos muitos benefícios sociais do governo. E é preciso ficarmos mais atentos para entender a real necessidade e a dificuldade humana.

Nós não podemos ficar apenas nas questões materiais. Vivemos grandes desafios de cunho moral, psicológico, emocional. Precisamos ter mais força e mais elementos para ajudar o ser a se resolver, a crescer. Isso sim o fará sair do escuro em que se encontra para a condição de uma vida melhor.

Olhando para o futuro, como você vê a continuidade desse trabalho?

Sempre será um trabalho promissor, de um prazer muito grande, pela amizade que nós criamos, pelo exercício de empatia e da alegria de conviver com pessoas tão de perto. No futuro, esse trabalho social continuará, porque as dificuldades e as mazelas humanas ainda terão algum tempo pela Terra. As pessoas falam do mundo de regeneração como se fosse um grande paraíso, mas o mundo regenerado também abrigará situações desafiadoras para o ser humano. Vemos um futuro que talvez seja mais moral, mais espiritualizado que material, mas a natureza não dá saltos.

Que mensagem você pode deixar para os jovens que querem se iniciar numa tarefa de assistência social hoje?

É importante buscar o trabalho, aprender com as pessoas, e ter a certeza de que todo mundo tem o que doar.

Hoje temos redes sociais, formas de comunicação emergentes. O futuro também pode estar no trabalho a ser realizado de forma digital, por exemplo, para localizarmos pessoas que precisem de nós, utilizando-nos de técnicas que já estão dando certo, como os trabalhos com alcoólicos, dependentes químicos. E há também o trabalho importante a se desenvolver para acolher a deficiência mental e a deficiência intelectual, que pode ser muito interessante. Não podemos esquecer também do abandono infantil. Tem muitas crianças que são órfãs de pais vivos; por que não encontrarmos uma forma de alcançá-las?

O que a casa espírita pode fazer nesse sentido?

Seria de grande valia que a gente trabalhasse a maior aproximação dos jovens e das crianças da casa com tarefas abertas, agradáveis, atividades com potencial de criar vínculos com o trabalho e com as pessoas, fortalecendo, por consequência, os próprios laços com o espiritismo, que nos fala de perto da importância do outro, e nos dá todos os fundamentos para entender o porquê da vida, de nossas imperfeições, da necessidade de nos libertarmos de nossos próprios obstáculos interiores. É preciso trabalhar também formas de ajudar as pessoas a se libertarem disso, porque a maior prisão ainda se encontra dentro de nós.