A sonata de Mozart que atravessou o túmulo
Por Adair Ribeiro Jr.*
Em meados do século 19, a França foi palco de um fenômeno que desafiou os limites da arte e da transcendência: a recepção de obras musicais por via mediúnica. Um dos destaques foi o “Fragmento de uma sonata”¹, partitura de quatro páginas ditada pelo espírito Mozart ao médium Brion d’Orgeval.
Edouard Barthélemy Brion d’Orgeval, o intérprete desta melodia, era um talentoso cantor e compositor francês, primeiro baixo da ópera cômica de Toulouse.
Allan Kardec submeteu a partitura a um rigoroso controle, apresentando-a a diversos peritos e artistas, omitindo sua origem espiritual. Para ele, a autenticidade da obra não deveria repousar apenas na fé, mas na evidência artística. Sem hesitação, todos reconheceram o estilo inconfundível do mestre austríaco.
O ponto alto das experimentações ocorreu em 8 de abril de 1859, em uma sessão da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas (SPEE). Naquela noite, a distinta pianista srta. de Davans, aluna de Chopin, executou o trecho perante uma plateia de especialistas, tocando previamente uma sonata composta por Mozart em vida. O veredito dos presentes foi unânime ao afirmarem que, não apenas a identidade do gênero era perfeita, como alguns chegaram a considerar a composição de além-túmulo superior.
Em outra comunicação obtida na SPEE, publicada na Revista Espírita de maio daquele mesmo ano, o próprio Mozart confirmou a autoria da obra musical, afirmando que o médium havia atuado como um amigo que não o traiu.
A obra de origem espiritual não escapou de polêmicas. O crítico musical Oscar Comettant, do jornal Le Siècle, atacou duramente a publicação com sarcasmo e ceticismo. Kardec respondeu com sua habitual elegância, ressaltando que tais ataques, ironicamente, serviam como propaganda gratuita para a doutrina espírita. Como previsto, o resultado foi o rápido esgotamento dos exemplares da partitura, publicada e comercializada pelo escritório da Revista Espírita.
Segundo a comunicação do compositor italiano Gioachino Rossini, pelo médium Nivart, encontrada em Obras póstumas², na composição musical, o sentimento é a harmonia; a música pode ser definida como o “médium da harmonia”, uma ferramenta que permite à alma ‘desmaterializar-se’ momentaneamente. Os instrutores espirituais ensinam que os gênios da música não perdem suas faculdades após a morte; eles agem sobre o fluido universal para reproduzir sons que a linguagem humana mal consegue traduzir.
A existência desta sonata evidencia que a arte, longe de ser um produto efêmero do cérebro, é uma conquista eterna do espírito, capaz de vibrar mesmo quando os instrumentos de carne já silenciaram.
Ouça a obra pela execução pelo músico Érico Bomfim: https://youtu.be/g2BmEsfB4dE
2 Allan Kardec, primeira parte, cap. “Música espírita”.
*Adair Ribeiro Jr. é curador do Museu AKOL – AllanKardec.online.