Os espíritos se antecipavam aos fatos para orientar Kardec
Por Adair Ribeiro Jr.*
Ao planejar a criação da Revista Espírita, essencial para o desenvolvimento do espiritismo, Allan Kardec consultou seus orientadores espirituais sobre a viabilidade do plano, cujos sábios conselhos e proteção foram cruciais para superar as dificuldades que surgiram por mais de uma década. Eles o aconselharam a perseverar no propósito, a não se intimidar com as dificuldades financeiras e garantiram que haveria tempo para tudo.
O auxílio constante e estratégico do mundo espiritual no trabalho de propaganda e divulgação do espiritismo pode ser observado na assistência que Kardec recebeu, desde o planejamento dos meios de difusão até o aproveitamento providencial de ataques de adversários para gerar interesse público. Espíritos comunicantes deram instruções precisas sobre como a Revista Espírita deveria ser conduzido para alcançar êxito duradouro. Foi-lhe recomendado “reunir o sério ao agradável”: o conteúdo sério para atrair cientistas e a instrução sólida ao interesse para deleitar o vulgo, evitando a monotonia por meio da variedade.
A propagação da doutrina também é descrita como sendo feita pelos próprios espíritos, que suscitavam médiuns em todos os pontos da Terra, inspirando escritores e jornalistas a emitirem pensamentos espíritas, muitas vezes sem que o soubessem, tornando-os instrumentos inconscientes da difusão da ideia.
Um evento de grande relevância para a propagação do espiritismo foi o auto de fé de Barcelona, uma queima pública de cerca de 300 livros espíritas ocorrida em 9 de outubro de 1861. O ato foi ordenado pelo bispo de Barcelona e executado pela Inquisição, destruindo obras enviadas da França, por Allan Kardec, ao livreiro Maurice Lachâtre.
A ocorrência foi revelada e antecipada em comunicação do Espírito da Verdade mais de duas semanas antes do fato se concretizar, conforme registrado no livro Obras póstumas. A informação é corroborada por uma carta de Amélie Boudet a Kardec, datada de 17 de outubro daquele ano, que se encontra disponível no Projeto Allan Kardec. Nela está registrada a frutífera e harmoniosa parceria estabelecida entre Kardec e o mundo espiritual: “duas cartas do senhor Lachâtre, relativas ao auto de fé, com cinzas e todos os detalhes que foram repetidos no jornal Le Siècle do dia 14, o que causará um ótimo efeito e estimulará a curiosidade; os espíritos realmente tinham dito que era necessário deixar acontecer”, informava Amélie ao esposo, que se encontrava em Bordeaux.
A vasta documentação e manuscritos disponíveis no Museu AKOL e no Projeto Allan Kardec da Universidade Federal de Juiz de Fora, em Minas Gerais, evidenciam que o intercâmbio com o mundo espiritual, além de ter sido naturalizado por Allan Kardec, foi uma constante na elaboração do corpo doutrinário do espiritismo. O codificador recorria frequentemente à ajuda dos espíritos, tanto na busca por conhecimento quanto em questões relacionadas às revisões contínuas de suas obras.
* Adair Ribeiro Jr. é curador do Museu AKOL – AllanKardec.online.
A carta de Amélie
Ségur, quinta-feira, 17 de outubro de 1860 [1861].
Meu bom amigo, recebi nesta manhã a tua segunda carta; ambas me trouxeram muito prazer; quando estou longe de ti, o tempo parece-me extremamente longo; sendo iniciada naquilo que fazes, penso nisso e espero o retorno com mais paciência. Estou feliz por ti e pelo espiritismo pela acolhida entusiasmada que te concederam; Lyon os eletrizou, e o impacto é proveitoso para a doutrina; mal posso esperar para ler esses discursos e publicá-los...
(...) Recebi também a visita da senhora Tailleur, que pede para ser parte da sociedade; (...) duas cartas do senhor Lachâtre, relativas ao auto de fé, com cinzas e todos os detalhes que foram repetidos no [jornal] Le Siècle do [dia] 14, o que causará um ótimo efeito e estimulará a curiosidade; os espíritos realmente tinham dito que era necessário deixar acontecer...
Minha saúde está muito boa, e o clima está muito favorável para minhas caminhadas e para a jardinagem. Adeus, meu bom Hyppolite, te beijo como te amo e espero com impaciência teu retorno, que, pelo visto, será apenas na segunda-feira.
Toda tua,
Amélie.