A importância e as curiosidades da Revista Espírita

Por Adair Ribeiro Jr.*

A Revista Espírita, publicada mensalmente por Allan Kardec entre 1858 e 1869, é muito mais do que um simples periódico histórico; é o ‘terreno de ensaio’ onde o corpo doutrinário do espiritismo foi meticulosamente construído. A coleção documenta o nascimento da doutrina e o rigoroso método de observação de seu sistematizador.

Kardec utilizava a publicação para sondar a opinião de homens e espíritos sobre novos princípios, antes de integrá-los definitivamente às obras básicas, o que ocorria somente após o devido processo de experimentação e debate. Isso garantiu a solidez da doutrina, permitindo que temas complexos fossem debatidos publicamente antes de sua validação final.

A linguagem espírita também estava em constante padronização. Um exemplo é o termo signologia, que foi substituído por sematologia, e tapologia, que evoluiu para tiptologia (comunicação por pancadas) em edições revisadas da Revista Espírita.

A importância de seu estudo reside no fato de que grande parte do conteúdo das obras da codificação surgiu primeiro nas páginas da Revista. As edições revisadas de O livro dos espíritos, as originais e as revisadas de O livro dos médiuns, O evangelho segundo o espiritismo, O céu e o inferno e A gênese contêm conhecimentos advindos de textos que transitaram primeiro no periódico mensal kardecista.

No Brasil, esse legado foi preservado graças ao esforço inicial de tradutores como Júlio Abreu Filho e à revisão cuidadosa de José Herculano Pires, que garantiu que a profundidade do texto original chegasse aos leitores brasileiros, embora essa iniciativa tenha ocorrido apenas um século depois da chegada do espiritismo ao Brasil.

Explorar a Revista Espírita revela fatos fascinantes sobre os bastidores da construção do corpo doutrinário do espiritismo, que ajuda na compreensão da ciência espírita. O periódico, além de registrar o refinamento de conceitos, apresentação e discussão de textos memoráveis e o trabalho de seu autor, complementa as obras básicas do espiritismo, revelando o processo de construção do pensamento espírita e a metodologia utilizada no seu desenvolvimento, que ocorreu através de amplo diálogo entre Kardec, colaboradores encarnados e os espíritos comunicantes.

Um caso notável se deu quanto à definição do momento da encarnação do espírito, sendo aceito, em 1857, que ela ocorria no nascimento; o que foi ajustado após debates na Revista, em 1860, quando passou-se a entender que se dava no ato da concepção.

Estudar a coleção é essencial para compreender o espiritismo como uma doutrina viva e progressiva. Ela revela o modus operandi de Kardec, que submetia tudo ao controle da razão e os princípios espíritas à concordância universal dos ensinos dos espíritos. A Revista Espírita e o seu contexto histórico demonstram a estrutura que alicerça a ciência e a filosofia espírita, ajudando em uma melhor compreensão do espiritismo.

* Adair Ribeiro Jr. é curador do Museu AKOL – AllanKardec.online.