Telles de Menezes e o nascimento da imprensa espírita
Por Lúcia Loureiro*
Iniciei-me na doutrina espírita no final da década de 1960 e logo me dediquei ao estudo das obras básicas da codificação organizada por Allan Kardec, assim como pela leitura de suas biografias existentes à época 1. Interessei-me depois pela pesquisa da história do movimento espírita baiano, com o objetivo de escrever uma obra sobre o assunto. Dediquei-me, então, a entrevistar pessoas, todas solícitas, com vivência em instituições tradicionais espíritas de que faziam parte.
Dentre os entrevistados, recebi valiosa contribuição de Alfredo Miguel dos Santos (1902–1985), orador e escritor espírita pernambucano radicado em Salvador, que me presenteou com edições da década de 1950 da revista Reformador. Nelas havia artigos sobre o baiano pioneiro na divulgação das obras básicas de Allan Kardec no Brasil: Luiz Olympio Telles de Menezes (1825-1893), uma das personalidades mais importantes no movimento espírita nacional.
Filho de Fernando Luís Telles de Menezes e Francisca Umbelina de Figueiredo Menezes, ele cresceu em ambiente marcado pela cultura e pela educação, tendo desde jovem demonstrado interesse pelas letras e pela instrução, vindo a atuar como professor primário, taquígrafo da Assembleia Legislativa da Bahia e oficial da Biblioteca Pública. Dominava francês, inglês, latim e castelhano, o que lhe viabilizou a leitura de obras estrangeiras e o diálogo com seus autores.
Além de colaborar em periódicos laicos, como Dário da Bahia e Jornal da Bahia, ele investiu, em 1849, no campo literário com a novela – Os dois rivais, apontada pelo escritor David Salles como uma das primeiras manifestações da ficção baiana, em 1849.
Sendo um dos diretores do Conservatório Dramático2, ponto de encontro de intelectuais e dramaturgos da época, tomou ciência dos escritos “revolucionários” de Allan Kardec e do movimento espírita nascente na França, logo importando O livro dos espíritos, traduzindo-o e reunindo-se a amigos para estudá-lo. Em 1866, publicou trechos extraídos da 13ª edição dessa obra no opúsculo O espiritismo – Introdução ao estudo da doutrina espírita 3, incentivando o ingresso de muitos brasileiros na nova filosofia espiritualista, cuja repercussão causou a primeira polêmica entre espíritas e católicos de tão intensa reação do alto clero, que extrapolou as fronteiras da Bahia.
Para promover estudos doutrinários e reuniões mediúnicas, ele já houvera fundado em Salvador o Grupo Familiar do Espiritismo, considerado o primeiro centro espírita formal do Brasil. Entretanto a reunião inaugural foi fixada em 17 de setembro de 1865, tomando por marco a recepção de uma mensagem psicografada pela médium e sua futura segunda esposa Elisa Pereira de Figueiredo Menezes, cujo autor espiritual se identificou como Anjo de Deus.
Telles de Menezes continuou a divulgar os ensinos espíritas, enfrentando, porém, perseguições de toda ordem, principalmente pela chamada “imprensa marrom” que priorizava o sensacionalismo e as difamações. Pela coragem diante das ofensas sofridas, o pioneiro foi titulado, na época, de “O Kardec Bahiano”, mesmo por seus oponentes.
Empreendimento marcante ocorreu em 1869, quando fundou o jornal O Écho D’Alêm-Túmulo – Monitor do Espiritismo no Brasil [na grafia atual, O Eco d’Além-Túmulo], distribuído em vários estados e na Europa, que o consolidou como pioneiro da imprensa espírita nacional, atualmente comemorada no dia 26 de julho. Ao receber a primeira edição, Armand Theodore Desliens, secretário-geral da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, elogiou a iniciativa na Revista Espírita (outubro e novembro de 1869), agradecendo sua chegada ao outro lado do Atlântico.
Por tudo que esse pioneiro contribuiu para a divulgação da doutrina espírita, Telles de Menezes merece ser lembrado como grande espírita brasileiro, responsável por introduzir e consolidar a doutrina espírita em nosso país, convicto de se tratar de valioso instrumento para transformação social e progresso espiritual da humanidade. Mesmo após sua morte, a 16 de março de 1893, no Rio de Janeiro, suas conquistas permanecem como legados fundamentais para a história do movimento espírita brasileiro.
Ter me aprofundado na pesquisa sobre a vida e a obra de Telles de Menezes me proporcionou a grande alegria de publicar, em 2021, o livro Memórias históricas do movimento espírita no estado da Bahia – a saga dos pioneiros e a repercussão no Brasil, reunindo todo o material levantado por décadas, com fatos inéditos e relevantes sobre a história do espiritismo em nosso país.
1. Dados biográficos incorretos sobre Allan Kardec foram retificados recentemente pelos pesquisadores Adair Ribeiro, Carlos Seth Bastos e Luciana Farias.
2. Fundado a 17 de agosto de 1857, quatro meses após o lançamento de O livro dos espíritos em Paris.
3. Obra raríssima, entre outras de Telles de Menezes. Existe fac-símile da capa, mas a obra não é encontrada nas bibliotecas do Brasil.
* Além de outros livros, a escritora Lúcia Loureiro é autora de peças teatrais, tendo sido uma das fundadoras do Teatro Espírita Leopoldo Machado, em Salvador, Bahia.