Antônio Gonçalves da Silva: o homem que se tornou “Batuíra” para servir à humanidade

Por Rita Cirne*

Trabalho era o seu lema. Servir ao próximo e às grandes causas da humanidade nortearam a vida de Antônio Gonçalves da Silva, Batuíra, um dos pioneiros do espiritismo no Brasil. Numa época em que ainda vivíamos as agruras da escravidão, ele fez de sua casa um abrigo para os escravos fugidos e para todos que necessitavam de ajuda. Os doentes e desamparados encontravam ali hospital, farmácia, albergue, asilo e conforto espiritual.

De espírito empreendedor, teve versatilidade para sair da pobreza em que nasceu, na Freguesia de Águas Santas, em Portugal, em 19 de março de 1839, para progredir em São Paulo, depois de viver por algum tempo no Rio de Janeiro, onde chegou aos 11 anos, passando ainda um tempo em Campinas, SP. Em São Paulo, entregava jornais de casa em casa e com tal rapidez e ânimo que recebeu o apelido de “Batuíra”, nome dado a uma ave pernalta muito ligeira que vivia em volta dos charcos na região formada hoje pelo Parque D. Pedro II, no centro da cidade.

Seu primeiro empreendimento foi voltado às artes. Com suas economias e ajuda de amigos montou um pequeno teatro, à então rua da Cruz Preta, que funcionou de 1860 a 1870.

Nessa época, começou a melhorar as suas finanças. Comprou lotes de terrenos, abriu ruas, construiu casas para alugar, iniciando o bairro de Lavapés, onde construiu sua própria residência na rua hoje conhecida como rua Espírita.

Nessas casas também cuidava de escravos foragidos e para isso contava com o grupo liderado pelo abolicionista Luiz Gama. Eles escondiam os escravos até os seus donos estarem prestes a desistirem das buscas e então compravam suas cartas de alforria.

Seu espírito de solidariedade se manifestou também em 1873, quando a cidade passou por um surto de varíola, doença altamente contagiosa. Batuíra engajou-se entre os voluntários que tratavam os doentes e abrigou muitos em sua própria casa.

Conversão ao espiritismo

Batuíra passou por uma grande provação em 1883, com a desencarnação do seu filho mais novo, Joaquim, com 12 anos de idade, vítima de tétano provocado por espinho de roseira. Durante o velório, em desespero, esse idealista trancou-se no quarto, de onde saiu modificado, dizendo aos presentes que seu filho não morrera, e que tivera uma visão do jovem dizendo que “estava mais vivo do que nunca”.

Despertado para a doutrina espírita e a continuidade da vida após a morte, passou a frequentar as reuniões públicas e os estudos na casa do dr. Ramos Nogueira, um grande pioneiro do espiritismo. Assim, além de praticar a caridade, consolar os aflitos, tratar os doentes, passou também a confortá-los com os princípios espíritas. E sentindo a necessidade de divulgar a doutrina, fundou, em 1883, o Grupo Espírita Verdade e Luz e, em 1890, criou o jornal Verdade e Luz, que chegou a ter uma tiragem de cinco mil exemplares.

A redação e a oficina ficavam no Lavapés e o próprio Batuíra era quem compunha e imprimia o jornal. Além da tradução de artigos estrangeiros, o jornal contou com a colaboração de muitos espíritas brasileiros, como Anália Franco e o poeta fluminense Casimiro Cunha.

Ao lado da redação, ele instalou uma livraria espírita, da qual não obtinha lucro, no ideal de facilitar o acesso às obras a um maior número de pessoas. Vendia livros em português e importados da Europa, América do Norte e países latinos. E para difundir ainda mais a doutrina, criou grupos espíritas em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

A verdadeira riqueza

Para bancar o jornal Verdade e Luz, chegou a vender algumas de suas casas, recursos que também o auxiliaram no tratamento dos doentes. Para poder medicá-los, estudou homeopatia, obtendo curas através da medicação, dos passes e da água fluidificada. Sua fama cresceu e passou a receber muitas pessoas consideradas loucas incuráveis pela medicina tradicional, mas que recobraram a consciência após serem tratadas por ele.

A história deste pioneiro segue repleta de registros feitos pelos que conviveram com ele nos centros espíritas que criou, nos artigos que escreveu e nas palestras que proferiu. Após a sua desencarnação, em 22 de janeiro de 1909, continuou ativamente trabalhando e consolando. Através da mediunidade de Chico Xavier, no livro de sua autoria Mais luz, Batuíra deixa o seu recado:

“Auxiliemo-nos uns aos outros, acendendo lâmpadas que clareiam a estrada – o coração humano é sempre uma lâmpada viva. Basta que se lhe comunique luz, para que irradie de si mesmo a necessária claridade com que se ilumina, iluminando os que se lhe fazem companheiros no dia a dia.”

A doutrina espírita deve muito ao incansável Batuíra, descrito pelo escritor Afonso Schmidt como “um homem baixo, entroncado. Que usava barbas que lhe cobriam o peito. Com o tempo essa barba se fez branca e os amigos diziam que ele era tão bom, que se parecia com o imperador [Pedro II]”.

Bibliografia

Batuíra, verdade e luz, Eduardo Carvalho Monteiro, Lúmen.

Grandes espíritas do Brasil, de Zêus Wantuil, FEB.

Mais luz, Batuíra, por Francisco Cândido Xavier, GEEM.

* Rita Cirne é jornalista e colaboradora do Grupo Espírita Batuíra, em São Paulo, e do jornal Valor Econômico.