O filho de escravos que fundou um centro espírita

Por José Benevides Cavalcante*
Olegário Ramos chegou em Garça, SP, com sua família por volta de 1934. Filho de escravos, ele fora beneficiado pela Lei do Ventre Livre e criado por um sacerdote de Rio Claro, SP, com quem aprendeu as primeiras noções de espiritismo. O sacerdote percebera algo no menino que no espiritismo chamamos mediunidade. Comprou para ele alguns exemplares da obra de Allan Kardec, dizendo que este seria seu verdadeiro caminho. Mesmo depois de casado, Olegário, esposa e filhos, jamais deixaram de visitar Frei Luiz, em sinal de imensa gratidão.

Quando chegaram em Garça, em contato com outras pessoas que já se identificavam como espíritas, Olegário passou a realizar sessões em sua casa. E, depois de algum tempo, o orientador espiritual dos trabalhos recomendou que se construísse um centro espírita. Nascia, assim, a ideia do Centro Espírita Paz, Amor e Caridade, fundado no ano de 1943.

Não faltou colaboração de amigos. Logo de início, o sr. Paschoal Boaretto doou o terreno para construção do centro, vizinho à casa de Olegário. O esforço de todos fez com que em pouco tempo o pequeno centro estivesse concluído, novinho e pronto para ser utilizado. Na condição de negro, pobre e espírita, desde que Olegário chegara em Garça, uma ostensiva onda de discriminação se voltou contra ele e seus familiares, liderada por pessoas da igreja e com a anuência do pároco local. Na época, o catolicismo imperava de forma absoluta.

Certo dia, o prédio recém-construído do Paz, Amor e Caridade amanheceu todo depredado, com palavras ofensivas grafadas nas paredes, atribuindo o espiritismo ao demônio. Era um momento sombrio para a doutrina. Mesmo assim, os espíritas foram à delegacia de polícia local e prestaram queixa. Garça não comportava delegado titular, mas o sr. Brasil Joly, que era espírita e respondia pela função, determinou fossem identificados os predadores e deu-lhes um prazo para devolverem o centro nas mesmas condições em que o encontraram.

E assim foi feito.

Dias depois, porém, um documento denunciando o grupo espírita por prática de bruxaria, curandeirismo e atentado aos bons costumes entrou na delegacia.

Olegário recebeu uma intimação para comparecer perante a autoridade policial na cidade de Pirajuí, a cerca de 50 quilômetros de Garça por estrada de terra, em plena estação chuvosa. Aguardando pelo pior, montado em seu cavalo, Olegário teve que enfrentar pesada chuva no caminho, além de atravessar o Rio Feio, já bastante caudaloso e perigoso. Não havia pontes. Dona Vitória, sua esposa, ficou em casa muito apreensiva, porque os dias se passaram sem qualquer notícia do marido. Por conta dessa demora, em companhia da filha Mercedes, elas rumaram para Pirajuí no lombo de um burrico.

Mercedes conta que a viagem foi uma verdadeira odisseia. Quando chegaram à margem do Rio Feio, assustaram-se com o volume de água que descia célere sob a chuva impetuosa. Assim mesmo, decididas, as duas se embrenharam nas águas, correndo sérios riscos de morte. Com muito custo (e prece, naturalmente), conseguiram atingir a outra margem.

Quando chegaram em Pirajuí, foram direto a uma pensão, onde supunham encontrar o marido, se é que ele já não tinha sido preso. E, graças a Deus, o encontraram. Olegário levou um susto ao ver a esposa e a filha, não entendendo como elas poderiam ter ali chegado com aquele mau tempo e a corrente furiosa do rio. Perguntado se ele havia se apresentado ao delegado, Olegário contou que estava temeroso do que lhe poderia acontecer, mas quando se apresentou no gabinete do delegado, este simplesmente lhe disse:

“Senhor Olegário, o senhor é um bom homem. Dizem que é curandeiro. Mas, se o senhor está curando, é bom, porque assim as pessoas não morrem.”

Aquela recepção da autoridade policial o pegara de surpresa e, sem entender o que estava acontecendo, agradeceu a proteção espiritual e retornou à pensão para esperar que o tempo melhorasse.

Olegário Ramos desencarnou em Garça em 1972, aos 106 anos; a esposa Vitória chegou aos 103 e a filha, Mercedes Ramos, quem fez este relato, desencarnou aos 92 anos. Olegário e Vitória tiveram cinco filhos, duas mulheres e três homens, todos já desencarnados.

* José Benevides Cavalcante, vice-presidente do Centro Espírita Caminho de Damasco, na cidade de Garça, SP, e autor do livro Fundamentos da doutrina espírita, Editora EME.