Maria Máximo: a atriz que trocou os palcos pela caridade
Por Rita Cirne*
Grande divulgadora da doutrina espírita no litoral paulista, Maria Máximo, atriz portuguesa que conheceu o sucesso nos palcos da Europa e do Brasil, não teve dúvidas sobre o caminho a seguir quando sentiu o desabrochar de sua mediunidade. Abandonou o teatro itinerante, onde atuava desde 1920 ao lado do marido Miguel Máximo, e fundou, em 1937, em Santos, o Centro Espírita Ismênia de Jesus, onde, além de suas atividades como médium clarividente, auditiva, psicógrafa, de desdobramento e de transfiguração, foi uma das grandes incentivadoras do estudo da codificação.
Recém-fundado, o centro rapidamente ficou conhecido como Casa dos Pobres, onde diariamente eram distribuídos alimentos a mais de 150 pessoas, ação que continua até hoje. Em dezembro de 1939, Maria conseguiu dar ao centro uma sede própria, com um salão para 600 pessoas e berçário que acolhia mais de 20 crianças abandonadas. Em 1944, inaugurou um prédio de três andares onde criou um abrigo para mães solteiras e, depois, a Escola Espiritualista Ordem e Progresso, ainda em funcionamento.
Esse trabalho se deu no período difícil da Segunda Guerra Mundial, entre 1939 e 1945, em plena crise nacional e internacional. Além das dificuldades financeiras, Maria enfrentou a incompreensão pelo preconceito contra a atividade mediúnica e a doutrina espírita. Mas estava habituada a desafios.
Nascida em 1888, em Riodades, em Portugal, deixou a casa dos pais com cerca de 18 anos, mudando-se para a cidade de Porto para se dedicar à vida de artista. Ao perder os pais, Maria Máximo veio, em 1919, para Belém do Pará, no Brasil, onde os irmãos Antônio e Aires já residiam. Ali conheceu seu futuro marido, iniciando ao seu lado a vida também voltada à arte, através do teatro itinerante.
Já o seu trabalho espiritual foi desenvolvido mais tarde, na cidade de Santos, SP, para onde se mudou em 1930, contando com a orientação de seu guia espiritual, Aurélio Augusto de Azevedo, seu pai nessa última encarnação. Esse ex-médico português afirmou-lhe que o “banco da misericórdia divina não a deixaria sem recursos para a obra e que apareceriam de forma inesperada”.
E, de fato, ela pôde contar com o grande apoio financeiro do coronel Arlindo Ribeiro de Andrade, que se aproximou do espiritismo após vivenciar um triste processo obsessivo de sua filha. Portador de expressivos recursos materiais, tornou-se o grande beneficiador do centro, doando boa parte de seus bens.
Orientações de Emmanuel
Em pelo menos duas ocasiões, Maria Máximo esteve em Pedro Leopoldo, MG, visitando o médium Chico Xavier, quando, além de orientações de Emmanuel, recebeu por seu intermédio incentivos ao trabalho, como o “Hino da Casa dos Pobres”, do poeta João de Deus, e poema de Casimiro Cunha.
Maria também pôde contar com o companheirismo do seu marido Miguel Máximo, que participou ativamente na fundação da centro, embora viesse a desencarnar cedo, em agosto de 1940, aos 52 anos. Mesmo assim, a dedicação da médium ao seu trabalho continuava, ainda que sentisse a sua saúde abalada por problemas cardiovasculares.
Não eram raros os pedidos de prece e orientações que a própria diretoria do centro dirigia a Chico Xavier: “Nossa irmã Maria Máximo está muito enfraquecida em sua matéria. Rogai a Jesus para que a fortifique, e muito particularmente vos peço, lhe aconselheis bastante repouso, que é o que ela mais necessita e a única coisa em que se torna rebelde, apesar das muitas recomendações do pai Aurélio”, enfatiza uma delas.
Também Maria buscava apoio junto ao médium mineiro: “Quero pedir-te um grande favor que, por certo, não me negarás. Pai Aurélio pede-me repouso; dr. Carneiro, pede-me repouso, mas as mensagens que recebo são sempre estímulo ao trabalho. Pedir-te-ia orientação para sossego de meu espírito, pois não sei se estou obedecendo ou desobedecendo.”
No entanto, o agravamento de seu estado de saúde levou-a ao repouso na Granja Fé, Esperança e Caridade (doada ao Ismênia por volta do ano de 1947). E mesmo estando a quilômetros de distância, Maria Máximo participava dos trabalhos de desobsessão no centro através do fenômeno de desdobramento, orientando e incentivando o trabalho por cerca de dois anos, até desencarnar em 10 de agosto de 1949, aos 60 anos.
Curas e perseguição
O início da missão de Maria Máximo foi de grandes desafios. Com a orientação de seu pai, a médium começou a realizar curas, até mesmo diante de casos considerados irreversíveis, como o de sua parente Arlete Maria, portadora de esclerose múltipla nervosa, que voltou a andar. Tais acontecimentos colocaram a médium na mira da classe médica, que passou a acusá-la de curandeirismo e de prática ilegal da medicina.
Intimada a prestar esclarecimentos às autoridades, diversos fenômenos espirituais ocorreram na delegacia, dentre eles a materialização de água e seu congelamento, dando provas de suas raras faculdades, de sua elevada condição moral e da assistência espiritual que possuía, digna daqueles determinados a realizar a sua missão no trabalho do bem.
Bibliografia
Terra de pioneiros e benfeitores, organizado por José da Conceição de Abreu e Rubens Toledo, USE.
www.ismeniadejesus.org.br
* Rita Cirne é jornalista e colaboradora do Grupo Espírita Batuíra, em São Paulo, e do jornal Valor Econômico.