Eu a amava tanto, até que um dia perdi o controle

Por Redação

Eu era um rico mercador da Samaria. Negociava potes, óleos, vinhos, peles, sedas e tapetes vindos da Pérsia. Tinha posses, prestígio e uma bela esposa, a quem amava muito.

Um dia, ela ficou cega. Daí, ouviu aquelas histórias (acerca das curas de Jesus). Eu a proibi. Busquei os médicos de Jerusalém, levei-a ao Templo. Deram banhos e óleos e nada adiantou. Um dia em que pernoitávamos em Jerusalém, ela, como sempre, se associou com algumas mulheres que o conheciam e, contra as minhas ordens, foi atrás de uma lenda e de um homem que podia curar. 

Lá foi ela, voltou boa, mas cismou que foi o homem que a curou. Eu não queria que ela falasse naquilo porque estávamos hospedados na casa de um mercador amigo, muito rico e que, além de mercador, fornecia ao Templo e a pessoas do Sinédrio. 

Voltamos para a Samaria, mas ela nunca mais foi a mesma. Vivia pelos cantos, os olhos perdidos no espaço, como se estivesse tendo visões. E toda pessoa que chegava, todo viajante, ela procurava saber, pedia notícias. E isso me incomodava.

Depois daquele encontro, não foram apenas seus olhos que mudaram. Mudou também sua maneira de viver. Ela, que conhecia o conforto de nossa casa e das minhas sedas, começou a se preocupar com os pobres e os leprosos. Dizia que os miseráveis, os pobres, os leprosos eram seus irmãos.

Distribuía nossas coisas e levava alimentos aos necessitados. Cheguei a trancá-la num quarto, mas, quando eu saía, ela escapava. E falava incessantemente daquele homem. Só falava naquele Rabi, naquele Reino estranho a mim.

Certo dia a vi lá, em Jerusalém. Confessou-se cristã. Eu deveria tê-la chicoteado, mas a amava muito. Então eu a defendi, dizendo que estava louca. Levei-a de volta para casa e a trancava num quarto, mas quando eu não estava ela escapulia para distribuir as nossas coisas, para levar alimentos a míseros leprosos. 

Eu a amava, mas não conseguia aceitar sua transformação. Até que um dia perdi o controle e a confrontei. Segurei-a pelos cabelos, bati-lhe com a cabeça na parede, chicoteei-a. Ela nada dizia e eu achava que já nem mais me amava, ao afirmar que os miseráveis, os pobres, os leprosos eram seus irmãos. Arrastei pela porta e a joguei do lado de fora. Arrastei-a por um pedaço da estrada e larguei-a, para que os irmãos dela fossem tomar conta.

Nunca mais a procurei. Não quis mais saber. Acreditava que nossa história tivesse terminado ali.

Muito tempo depois, nossos caminhos voltariam a se cruzar. Em outra existência, aquela mulher retornaria à minha vida como minha irmã. O amor nos oferecia outra oportunidade, mas eu, orgulhoso, ainda carregava antigas resistências.

Séculos se passaram. E foi numa reunião mediúnica que aquelas lembranças tristes começaram a emergir.

“Escute, meu querido. Isto agora são memórias que você precisa enfrentar para aceitar essa realidade do amor, da qual você foge”, orientaram-me.

Fui percebendo aos poucos, no decorrer da conversa, que ainda havia um longo caminho pela frente. Minha maior resistência continuava sendo justamente contra aquele que transformara a vida de minha esposa. Para mim, Jesus era inatingível e complexo.

“Não é, não. Como é que ela o aceitou?”, perguntaram-me.

Quando respondi secamente que eu não o compreendia, foi então que uma observação me fez parar e pensar:

— É porque você quer chegar a ele pela inteligência, pelo intelecto, pela razão fria; ela chegou mais depressa do que você. Como é que ela o entendeu? Ela é mais brilhante do que você? Não. É mais amorosa. Você não percebe que o caminho do amor é mais curto?

Percebi que havia perdido muito tempo, feito tantas voltas, deixado passar tantos séculos...

Comecei a entender o vazio que carregava. Tivera riqueza, negócios, prestígio. Mas perdera justamente aquilo que mais importava. Faltava-me ela.

— Falta o amor que você recusou, mas que está ao alcance da sua mão.

O amor ainda estava ao meu alcance. Mas também não significava que tudo estivesse resolvido. Eu tinha ainda um longo caminho de aceitação a percorrer. 

Depois de tantos séculos, começava a compreender e a querer dar os primeiros passos. Eu tentara chegar ao Cristo pela inteligência, pela razão. Ela chegara pelo amor.

E, se eu mudasse, também conseguiria ser feliz.