A parceria entre Chico e Herculano para contextualizar o espiritismo
Por Eliana Haddad
Nos anos 1970, o médium Francisco Cândido Xavier e o filósofo e jornalista J. Herculano Pires desenvolveram um trabalho editorial inovador, que consistia em um rico diálogo entre o plano espiritual e o plano físico para debater os dilemas contemporâneos do ser humano. Foi assim que surgiu a série “Na Era do Espírito”, composta por quatro livros: Chico Xavier pede licença (1972), Na era do espírito (1973), Astronautas do além (1974) e Diálogo dos vivos (1974).1
Chico abria o capítulo relatando o contexto, uma dúvida de visitantes, uma carta recebida ou o ambiente do encontro que motivava a reunião de psicografia. Em seguida, vinha a mensagem psicografada pelo médium, geralmente assinada por Emmanuel, trazendo a visão e o consolo espiritual sobre aquele problema específico. Depois, Herculano, em São Paulo, com o pseudônimo de Irmão Saulo, comentava a mensagem sob uma ótica filosófica, conectando-a diretamente com as obras de Allan Kardec e com os desafios modernos.
O projeto buscava ‘humanizar’ os ensinamentos espíritas e trazê-los para o cotidiano, debatendo temas complexos como relacionamentos e conflitos domésticos, jovens, educação, provas coletivas, doenças e o papel social dos espíritas.
Antes de irem para os livros, os textos foram publicados no jornal Diário de São Paulo, numa coluna sobre espiritismo que Herculano Pires editava aos domingos e que fez muito sucesso entre os leitores, porque revelava de maneira simples a visão espírita de temas atuais, explicando aspectos essenciais da doutrina.
A dinâmica do trio
O formato por eles escolhido era não somente uma maneira de organizar o conhecimento, mas também de trazer a espiritualidade para onde as dores humanas de fato incomodavam e apareciam.
Um ponto importante levantado quase sempre era a necessidade do respeito ao livre-arbítrio e da conscientização sobre a escravidão advinda dos apegos nas relações familiares.
Em “Filhos casados”, um dos capítulos do livro Na era do espírito, por exemplo, o trio Chico-Emmanuel-Herculano nos oferece um caminho libertador e profundamente humanizado sobre o tema. Escreve Chico a Herculano:
“Envio-lhe mensagem de nosso caro Emmanuel recebida em reunião pública. Nossa casa estava com grande número de irmãs e irmãos que se referiam a lutas e problemas com os filhos casados. Opiniões diversas se entrechocavam. Aberta a nossa reunião, as questões números 203, 204 e 205 de O livro dos espíritos foram oferecidas à assembleia para estudos. Depois de comentários diversos, Emmanuel escreveu, por nosso intermédio, a página que os amigos presentes solicitaram fosse enriquecida com seus estudos e comentários destinados às nossas reflexões e aos nossos diálogos em torno dos ensinamentos de Allan Kardec.”
Dizia Emmanuel que o tema era da mais alta importância nas questões de relacionamento:
“Muito comum na Terra, quando na mordomia do lar, esquecermo-nos de que os nossos filhos cresceram em tamanho físico e em responsabilidades espirituais. E quase sempre, conquanto involuntariamente, passamos a influenciá-los, de modo negativo, para lá da órbita do apreço que lhes devemos. Reflitamos nisto, aprendendo a liberá-los de nossas exigências fantasiadas de amor. Estejamos decididos a auxiliá-los, doando-lhes a oportunidade de serem eles mesmos nas escolhas que façam e nas experiências que busquem...”
E Herculano (Irmão Saulo) envia a Chico seu estudo e reflexão sobre parentescos e afinidade, contextualizando Allan Kardec:
“A questão 203 de O livro dos espíritos coloca em termos espirituais o problema das linhagens familiares. Pensamos geralmente que a herança biológica é a determinante de temperamentos e caracteres. O espiritismo nos mostra que a natureza humana é espiritual e não material. Assim, o que determina a condição do homem é a sua essência e não a sua forma, o seu espírito e não o seu instrumento de manifestação corpórea. (...) Cada espírito que se encarna traz em si mesmo a sua personalidade já formada em encarnações anteriores. Cada ser humano é o que ele é por si mesmo. (...) É fácil compreendermos a necessidade de independência não apenas social, mas também afetiva, para os filhos que se emancipam e especialmente para os que constituíram a sua própria família. (...) Os pais são responsáveis pelos filhos no tocante à orientação que lhes fornecem pelos exemplos e pela educação. Mas não podem querer sujeitá-los às suas ideias e formas de vida. Afinidade não quer dizer identidade. É por isso que Emmanuel nos lembra o amor sem apego, sem intenções de sujeição, para que não criemos problemas à liberdade de ação e de experiências dos filhos casados. Devemos ampará-los, auxiliá-los e não os torturar com as nossas exigências egoístas.
1 Publicados pela editora GEEM.