A negativa que Yvonne Pereira recebeu

Yvonne Pereira com Chico Xavier, com quem a médium se correspondeu e manteve amizade por muitos anos.

Por Izabel Vitusso

A primeira vez que Yvonne Pereira levou suas obras a serem avaliadas para publicação na Federação Espírita Brasileira, a médium não obteve sucesso. Era o ano de 1944. Tratava-se dos romances Amor e ódio (espírito Charles) e o reconhecido Memórias de um suicida (Camilo Castelo Branco).

Ela conta:

“Retirei-me sem me agastar. Eu reconhecia a minha incapacidade e não insisti. Aliás, eu mesma não soubera compreender o enredo de Memórias de um suicida; acreditava tratar-se de uma grande mistificação, e silenciei.” 1

Chegando em sua residência, a médium pegou uma caixa de fósforos e se dirigiu para o quintal, a fim de queimar os originais, por nem mesmo ter onde guardar o volume de tantas folhas. Mas, ao riscar o fósforo e aproximar as páginas da chama, viu o braço e a mão de um homem, estendidos como que protegendo as folhas, e uma voz assustada, dizendo-lhe ao seu ouvido: 

“Espera! Guarda-os!”, reconhecendo Yvonne a presença de Bezerra de Menezes naquelas vibrações. 

Passaram-se anos, um período de grandes lutas em que a médium deu todos os testemunhos de seu esforço para sua renovação espiritual, até que certa manhã, através de sua apurada mediunidade, percebeu que o espírito Léon Denis se apresentava para lhe dizer algo: 

“Vamos refazer o livro sobre o suicídio. Ele está incompleto; não poderá ser publicado como está.” 

Respondendo afirmativamente, a médium disse que estaria pronta na semana seguinte. 

“— Não! Vamos começá-lo hoje, agora, neste momento!” – ela ouviu.
Com tudo isso, Yvonne concluiu ter sido providencial a recusa dos livros quando levou para análise pela primeira vez. Se fosse avaliado como estava não seria aceito, por faltar o conteúdo doutrinário enfeixando a obra, o que daria o verdadeiro sentido a ela e nisso Léon Denis a auxiliaria. 

Com o livro Memórias e um suicida totalmente revisto e finalizado, buscou novamente a Federação, sendo acolhida e orientada para que levasse os originais das obras datilografados para serem mais bem avaliados. 

“Ora, eu não dispunha de uma máquina de escrever e ainda menos de dinheiro para comprá-la, e nem me permiti pedi-la emprestada a quem quer que fosse. Guardei novamente os originais em manuscrito e não tornei a visitar o dr. Wantuil de Freitas, [presidente da FEB na época], que ficara aguardando a entrega das obras” –  ela conta.

“Passaram-se sete anos até que eu obtivesse uma máquina de escrever. Então, a obra foi datilografada e voltei novamente a Federação Espírita Brasileira. Fui recebida com a mesma fraternidade cristã e as obras aceitas pelos examinadores. Eu levara três: Nas telas do infinito, a primeira a ser publicada; Memórias de um suicida [1954] e Amor e ódio

Agradeço ao nobre espírito Manuel Quintão por não me ter atendido no ano de 1944. Sua recusa salvou não só Memórias de um suicida, mas toda a minha posterior obra mediúnica.”

Bibliografia

1 À luz do consolador, Yvonne A. Pereira, FEB.