Quando o pensamento se torna prisão
Por Umberto Fabbri*
O pensamento é uma das maiores forças de que dispõe o espírito. Por meio dele construímos ideias, alimentamos sentimentos, estabelecemos relações e direcionamos nossas escolhas. Pensar é uma necessidade natural da vida espiritual. O problema surge quando deixamos de conduzir nossos pensamentos e passamos a ser conduzidos por eles.
É nesse momento que podemos compreender a fixação mental, que significa permanecer ligado de maneira persistente a uma pessoa, a um acontecimento, muitas vezes sem perceber que estamos alimentando o nosso próprio sofrimento.
Para a doutrina espírita, não somos apenas o resultado das circunstâncias que vivemos. Somos espíritos em processo de evolução, responsáveis pela maneira como reagimos às experiências que a vida nos apresenta.
Allan Kardec nos ensina que o espírito possui liberdade para escolher seus caminhos. Essa liberdade traz consigo responsabilidade. Não podemos impedir que determinados pensamentos surjam em nossa mente, mas podemos escolher aos quais daremos permanência.
Uma ofensa sofrida pode transformar-se em ressentimento; um erro em culpa permanente; uma preocupação em medo e, aos poucos, aquilo que começou como um pensamento passa a ocupar espaço cada vez maior dentro de nós.
A fixação mental não é apenas pensar muito em alguma coisa. É perder a liberdade de pensar diferente e, quando isso acontece, precisamos modificar o movimento da mente.
A primeira providência é a vigilância. Jesus nos recomendou: “Vigiai e orai.”
É preciso perguntar: Por que estou alimentando isso? O que esse pensamento está produzindo em mim?
A segunda providência é a oração. A oração sincera modifica nossa disposição íntima e nos aproxima da espiritualidade superior. Ela não elimina magicamente nossas dificuldades, mas pode nos oferecer força, equilíbrio e novas percepções para enfrentá-las.
Outra ferramenta é o trabalho no bem. Quando nos colocamos a serviço de alguém deslocamos o foco de nossa própria dor. Não significa fugir do problema, mas impedir que ele se transforme no centro de nossa existência.
Também precisamos aprender a perdoar, o que não significa considerar correto aquilo que nos fizeram, mas libertar-nos de continuar carregando o peso da ofensa.
Precisamos substituir, gradativamente, o pensamento repetitivo pelo pensamento construtivo. Não basta dizer: “Não quero pensar nisso.” A mente precisa receber novos conteúdos: estudo, trabalho, oração, leitura edificante, convivência saudável e ações que favoreçam nosso crescimento espiritual.
A doutrina espírita nos oferece uma visão ampliada da existência e de que muitas experiências possuem raízes que ultrapassam aquilo que conseguimos perceber. Essa compreensão não deve servir para justificar o sofrimento, mas para dar-lhe significado e oportunidade de crescimento.
Quando compreendemos que somos espíritos imortais, percebemos que nenhuma experiência deve possuir força suficiente para nos aprisionar definitivamente.
A fixação mental é, muitas vezes, uma prisão construída pelo nosso próprio pensamento, e se fomos nós quem a construímos, também podemos iniciar o trabalho de libertação.
É nesse ponto que começa a verdadeira transformação.
Pensamento disciplinado, oração sincera, trabalho no bem, perdão e confiança em Deus constituem caminhos para recuperar a liberdade interior.
A vida continuará apresentando desafios. Mas quando aprendemos a governar nossos pensamentos, deixamos de ser apenas passageiros das circunstâncias e passamos a assumir o leme da própria existência.
* Profissional de marketing, Umberto Fabbri é orador e escritor com diversos livros publicados.