A consciência da imortalidade e o ressignificar da reencarnação
Por Eder Andrade*
Quando Léon Denis escreveu seu livro Depois da morte, procurou explicar o princípio calcado na lógica e na razão que o espiritismo traz, a compreensão da reencarnação trazida por Jesus, no conjunto de revelações que ganhou o nome de Boa Nova. Ele escreveu a seguinte passagem:
“Acontece que almas, atingindo o estado humano, escolhem corpos débeis e sofredores para adquirirem as qualidades que devem favorecer a sua elevação; porém, na natureza inferior, nenhuma escolha poderia praticar e o ser recai forçosamente sob o império das atrações que em si desenvolveu.”1
Como espíritos imortais, vamos sobreviver à morte do corpo e a compreensão da imortalidade da alma é fundamental para ressignificar nossa encarnação. Um melhor entendimento do fenômeno da reencarnação poderá favorecer a nossa relação com nossa vida.
O adoecimento frequente, a falta de perspectiva com relação ao futuro são fatores estreitamente ligados à forte visão materialista de uma unicidade de existência, em um mundo de provas e expiações tão competitivo e desafiador.
O período pós-pandemia acentuou os índices de depressão, as estatísticas de suicídio e o uso de drogas, reflexo de uma sociedade adoecida moral e espiritualmente.
Os conflitos do século 21 exacerbaram o materialismo, cristalizando os padrões de felicidade, que levam as pessoas a se afastarem espiritualmente dos valores morais. E o sentimento de culpa pelo fracasso diante da vida favorece os quadros doentios de depressão e até mesmo de obsessão.
Se temos a consciência da imortalidade da alma e da transitoriedade desta vida física como uma oportunidade para nossa evolução, precisamos, mesmo com dificuldades, fazer escolhas que modifiquem nosso curso de vida.
Emmanuel nos deixa claro que, se já sabemos, devemos colocar em prática, dando um testemunho de nosso desejo de transformação:
“Se já percebeste que o berço não é o início e que o túmulo não é o fim, não desprezes a preparação do amanhã, a fim de que não se interrompa a tua caminhada para diante...”2
Uma reflexão sobre nossa trajetória reencarnatória pode ser fortalecida pelas diversas comunicações de companheiros desencarnados, que nos legaram depoimentos para ressignificar nossas vidas diante das adversidades do plano terrestre.
Referindo-se à sua vida de escritor quando encarnado, Humberto de Campos, através de Chico Xavier, narra:
“Antigamente eu escrevia nas sombras para os que se conservavam nas claridades da vida. Hoje, escrevo na luz branca da espiritualidade para quantos ainda se acham mergulhados nas sombras do mundo...
Mesmo assim, na minha condição de intangibilidade, não me furto ao desejo de lhes contar algo a respeito desta ‘outra vida’ para onde todos têm de regressar. Se não estou nos infernos de que fala a teologia dos cristãos, não me acho no sétimo paraíso de Maomé.” 3
Negar a imortalidade da alma e duvidar da vida futura proposta pela Boa Nova pode nos colocar em uma situação delicada, favorecendo nossa permanência nas sombras da indecisão e no impasse de um dogma inaceitável que, segundo Herculano Pires, dificulta a verdadeira compreensão do seu real significado abordado pelo espiritismo.4
Referências
1 Depois da morte, Léon Denis, por Chico Xavier, FEB.
2 Vida e caminho, espíritos diversos (Emmanuel), por Chico Xavier, GEEM.
3 Palavras do infinito, Humberto de Campos, por Chico Xavier, LAKE.
4 Evolução espiritual do homem, Herculano Pires, Boa Nova Paideia.
* Professor de história e sociologia, frequentador do Centro Espírita Consolador, no Rio de Janeiro, RJ.
Certamente a vida futura não é uma coisa palpável como uma estrada de ferro e uma máquina a vapor, mas pode ser compreendida pelo raciocínio. Se o raciocínio pelo qual a gente procura demonstrá-la não satisfizer à razão, a gente abandona premissas e conclusões. Interroguem-se aqueles que negam a vida futura e todos dirão que foram conduzidos à incredulidade pelo próprio quadro que lhes era apresentado, com seu cortejo de diabos, de labaredas e de sofrimentos sem fim.
Todas as questões morais, psicológicas e metafísicas se ligam de maneira mais ou menos direta à questão do futuro. Disso resulta que essa última questão, de certo modo, depende da racionalidade de todas as doutrinas filosóficas e religiosas. Por sua vez, o espiritismo vem, não como uma religião, mas como doutrina filosófica, trazer a sua teoria, apoiada no fato das manifestações.
(...) Sem a vida futura a moral não tem base. A vitória do espiritismo está precisamente na sua maneira de apresentar o futuro. Além das provas que ele nos dá, o quadro que ele pinta é tão claro, tão simples, tão lógico, tão conforme à justiça e à bondade de Deus, que involuntariamente a gente diz: “Sim, é assim mesmo que a coisa deve ser; assim eu a tinha imaginado; e se não tinha acreditado é porque me tinham ensinado de outro modo.” (Allan Kardec, Revista Espírita, abril 1862 – Consequências da doutrina da reencarnação sobre a propagação do espiritismo)
(Redação)