Partituras vindas do além

“Se existe mediunidade mecânica, há como um médium sem conhecimentos musicais escrever partituras ditadas por espíritos?” – Maria Adelaide Gois, São Bernardo do Campo, SP

Por Redação

A mediunidade mecânica, detalhada por Allan Kardec em O livro dos médiuns, é um fenômeno que não depende do talento intelectual ou da formação acadêmica do médium, mas de uma disposição orgânica e perispiritual que permite ao espírito exercer uma ação direta sobre os centros nervosos e o sistema motor do médium.

Referindo-se a essa mediunidade,1 no item 190, Kardec explica que o espírito atua sobre a mão do médium de forma independente da vontade deste. O espírito imprime à mão um movimento que independe da vontade do médium. [...] A mão é instrumento, mas o pensamento do médium não participa do ato.”

Um bom exemplo para ilustrar é a médium britânica Rosemary Brown (1916-2001), que era dona de casa. Mesmo com uma formação musical rudimentar, que mal dominava o teclado, ela conseguia grafar partituras com harmonias sofisticadas que jamais teria sido capaz de conceber por conta própria. Ela atuava apenas como ‘instrumento’ para que espíritos de músicos como Beethoven, Chopin, Bach e Liszt, escrevessem suas obras, ‘desenhando’ inclusive as notas no papel.

A mediunidade psicográfica musical de caráter mecânico é diferente da mediunidade psicográfica consciente e intuitiva. Nesse último caso, o espírito atua sobre o pensamento do médium, que precisa ‘traduzir’ a ideia com seus próprios recursos. Se Rosemary fosse apenas intuitiva, ela poderia até ouvir a melodia em sua mente, mas a falta de teoria musical a impediria de passá-la para o papel.

Rosemary Brown escreveu um livro, Sinfonias inacabadas (Unfinished Symphonies), onde relata como passou a ser procurada por compositores como Liszt, Chopin, Beethoven, Debussy, Bach e muitos outros, mesmo sem possuir formação musical erudita. O livro descreve o processo de transcrição das partituras, as dificuldades técnicas enfrentadas e as mensagens deixadas pelos mestres musicais, cujo objetivo principal não era apenas “fazer música”, mas fornecer provas concretas da sobrevivência da alma e da continuidade do talento após a morte física. Ela explica que não entrava em transe profundo; muitas vezes tomava chá enquanto os espíritos guiavam suas mãos.

As partituras recebidas pela médium foram analisadas por musicólogos e maestros renomados, que identificaram a “assinatura harmônica” e o estilo inconfundível de cada compositor, incluindo digitações complexas e usos específicos de pedais do piano que a médium, como leiga, desconhecia.

Em entrevista, em 1973, Rosemary Brown detalhou o processo e a paciência dos compositores comunicantes, informando que o objetivo do grupo, liderado por Liszt, era pedagógico, pois, ao utilizarem um ‘instrumento’ sem formação erudita, os mestres ofereciam ao mundo uma prova de que a alma sobrevive e mantém suas capacidades criativas além do túmulo.

Assista à entrevista e à execução ao piano de Rosemary Brown: bit.ly/EntrevistaRosemaryBrown