O reencontro espiritual com quem já encarnou

Quando eu desencarnar, encontrarei as pessoas que partiram muito tempo antes de mim? Se elas estiverem encarnadas, poderei revê-las? – Lucinda Caires, Mogi das Cruzes, SP

Por Eliana Haddad

É uma pergunta que geralmente nasce de outra inquietação: podemos perder novamente aqueles que amamos? Se a morte não os levou definitivamente, uma nova encarnação poderia separá-los de nós?

Para o espiritismo, os corpos mudam e as existências se sucedem, mas o espírito permanece com todas as suas experiências e aquisições morais. Os vínculos verdadeiros de afeição não desaparecem simplesmente porque um dos envolvidos deixou o corpo ou iniciou uma nova existência.

Allan Kardec trata diretamente do assunto em O livro dos espíritos. Na questão 160, pergunta se, depois da morte, o espírito encontra aqueles que conheceu na Terra e que morreram antes dele. A resposta é afirmativa, conforme a afeição existente entre eles, informando-se ainda que o desencarnado “vê os que estão na erraticidade, como vê os encarnados e os vai visitar”.

Portanto, se alguém que amamos partir muitos anos antes de nós e já estiver novamente encarnado quando chegar a nossa vez de deixar o corpo, não terá desaparecido do nosso horizonte espiritual. Estará vivendo outra experiência, em outro corpo ou não, muitas vezes até em circunstâncias inteiramente diferentes, mas continuará sendo o mesmo espírito imortal com suas memórias.

Como reconhecê-los?

Surge então outra pergunta: como reconhecê-lo? Para compreendermos essa questão, precisamos falar do perispírito, envoltório fluídico que acompanha o espírito.

Em O livro dos médiuns, Kardec explica que ele é flexível e expansível e pode assumir diferentes aparências sob a ação do pensamento e da vontade do espírito. O capítulo “Do laboratório do mundo invisível” mostra como os espíritos agem sobre a matéria fluídica, produzindo formas, vestimentas e objetos.

A gênese, no capítulo 14, dedicado aos fluidos, aprofunda bastante essa explicação. Kardec chega a explicar que um espírito pode apresentar-se com a aparência que possuía quando era conhecido por determinada pessoa, ainda que tenha tido outras encarnações depois daquela. A forma se modifica; a individualidade permanece.

Isso também acontece quando o espírito está encarnado. Durante o sono, por exemplo, ocorre a chamada emancipação da alma, quando se afrouxam temporariamente os laços que prendem o espírito ao corpo, permitindo-lhe maior liberdade. Kardec também quis saber (questão 414 de O livro dos espíritos) se duas pessoas poderiam se visitar durante o sono. A resposta é sim! Nesse estado, podemos encontrar parentes, amigos e outros espíritos com os quais mantemos vínculos, embora nem sempre conservemos, ao despertar, lembrança clara desses encontros.

Plasticidade do perispírito

Durante a emancipação da alma o espírito encarnado pode assumir a aparência de uma existência anterior para ser reconhecido. Essa possibilidade pode ser compreendida a partir dos próprios princípios que o espiritismo estabelece. É que, parcialmente desprendido do corpo físico, o espírito conserva seu perispírito, envoltório fluídico dotado de plasticidade e sujeito à ação do pensamento e da vontade. É por isso que os espíritos podem se encontrar e se reconhecer independentemente da forma corporal em que estiverem em novas existências. Assim, se um ente querido já estiver novamente encarnado, a sua nova aparência física não será obstáculo ao reencontro e ao reconhecimento.

Aliás, Kardec pergunta, na questão 285 de O livro dos espíritos, se os espíritos se reconhecem por terem convivido na Terra. A resposta é simples: “Perfeitamente.”

Talvez esteja aí um dos aspectos mais consoladores da imortalidade segundo o espiritismo. Reencarnar não significa apagar tudo o que fomos nem todos os que amamos. Significa prosseguir.

União pela verdadeira afeição

O evangelho segundo o espiritismo, capítulo 14, ensina que a reencarnação, longe de destruir os laços de família, amplia-os e fortalece-os. Espíritos ligados por verdadeira afeição podem reencontrar-se em diferentes existências e sob diferentes posições. E, mesmo quando uns estão encarnados e outros não, “nem por isso deixam de estar unidos pelo pensamento”.

A separação corporal não representa necessariamente o encerramento de uma história, nem a reencarnação o apagamento das relações anteriores. Pais, filhos, companheiros e amigos podem trocar de corpo, de época, de país e até de posição familiar.

Mudam os personagens e os cenários, mas tudo permanece no espírito, fazendo parte da sua jornada evolutiva, passo a passo. Nada se perde. E aquilo que verdadeiramente liga um espírito a outro – quando é afeição real – não está preso ao rosto, ao nome ou ao corpo de uma única existência.