A voz de quem já se foi

“Sinto muita saudade do meu avô e gostaria de saber se é possível ouvir a sua voz, como era quando vivo.” – Shirlene Silva, Pouso Alegre, MG

Por Eliana Haddad


A saudade que sentimos de nossos entes queridos é testemunha de que o amor permanece, independe de estarmos ou não encarnados, porque quem ama é o espírito, que é o ser imortal e que carrega consigo onde estiver todas as suas experiências e aquisições.

As obras de Allan Kardec explicam que é possível sim ouvir a voz original de um desencarnado, tratando-se tal ocorrência de um fenômeno natural, chamado de pneumatofonia ou voz direta, que a ciência espírita explica.

Diferentemente da psicofonia, que acontece quando o espírito utiliza as cordas vocais de um médium para falar (médium falante), na voz direta o som é produzido no ar, diretamente no ambiente.

O livro dos médiuns, no item 150 (2ª parte, cap. 12) trata da pneumatofonia, fenômeno em que espíritos produzem sons, sem usar cordas vocais físicas. Allan Kardec comenta que, dado que os espíritos podem produzir ruídos e pancadas, também podem fazer com que se ouçam sons que imitam a voz humana. Ele aprofunda essa análise na Revista Espírita de fevereiro de 1858, ao comentar o caso de Mademoiselle Clairon, uma atriz francesa que era seguida por sons vocais espontâneos.

As vozes dos espíritos podem ser ouvidas por todos os participantes numa reunião de materialização, quando os espíritos se utilizam da doação dos fluidos de médiuns de efeitos físicos para formarem, por exemplo, uma garganta para emitir a voz direta. Isso porque, desencarnados, eles conseguem manipular os fluidos através de seu pensamento e vontade, imprimindo-lhes as qualidades de que necessitam para sua comunicação, uma vez que não possuem órgãos em seu corpo perispiritual.

Os médiuns de efeitos físicos são particularmente aptos a produzir esses fenômenos materiais, como os movimentos dos corpos inertes, ou ruídos, vozes etc. Eles são classificados em médiuns facultativos (têm consciência desse poder) e médiuns involuntários ou naturais (nenhuma consciência têm do poder que possuem). “Os médiuns gozam de maior ou menor poder, produzindo, por conseguinte, efeitos mais ou menos pronunciados. Muitas vezes, um poderoso médium produzirá sozinho mais do que vinte outros juntos”, explica o espiritismo.

Relato de Nena Galves sobre a voz de André Luiz

No livro Até sempre, Chico Xavier (CEU), no capítulo “Uma materialização inesquecível”, Nena Galves, amiga de Chico Xavier, descreve a experiência de ouvir o instrutor espiritual André Luiz por meio do fenômeno da voz direta. Chico convidou Nena e seu marido Francisco Galves para acompanhá-lo em uma visita à sua amiga, dona Ilda, médium de efeitos físicos que morava em Santos, SP.
“Os anfitriões colocaram um cone feito de papelão com aproximadamente 50 centímetros de altura no meio da sala. Disseram que costumava acontecer o fenômeno de voz direta. Sentamo-nos em círculo, a médium recostada no sofá. Preces, cantos, em seguida começaram os fenômenos. Os discos tocavam sozinhos na vitrola, sem que ninguém a ligasse. O cone começou a movimentar-se do chão ao teto com uma velocidade surpreendente. Os espíritos começaram a falar por meio do cone, dirigiam-se a cada um, cumprimentando-nos e agradecendo. Para nossa surpresa, manifestou-se o espírito André Luiz, o mesmo que Chico recebia por meio da psicografia! Dirigiu-se a Chico e com ele manteve um longo diálogo, em que respondia às perguntas que lhe eram feitas mentalmente”, relata Nena Galves.
Ela lembra que naquela época o médium atravessava um momento difícil, pois Waldo Vieira, companheiro de trabalho, acabara de se desligar da tarefa. Chico teria que recomeçar novamente sozinho. “André Luiz respondeu às dúvidas de Chico com estímulos de confiança e prometeu-lhe que continuariam juntos na tarefa do livro. Chico chorava”, conta a autora, lembrando que a voz de André ressoava nos quatro cantos da sala.