Quando apostar deixa de ser diversão
Por Eliana Haddad
Do entretenimento ao vício, as apostas on-line conquistaram milhões de brasileiros, movimentam bilhões de reais e já são tratadas como um importante problema de saúde pública.
No Brasil, o termo Bet – palavra inglesa que significa aposta – se popularizou principalmente para designar as plataformas digitais de apostas esportivas e jogos on-line de quota fixa, quando o apostador sabe, no momento que aposta, quanto poderá receber se acertar. Sem a necessidade de locais físicos e com poucas barreiras entre o impulso e a realização da aposta, o dinheiro também deixa de ser percebido concretamente, bastando alguns cliques para depositar, apostar, ganhar ou perder. O estímulo é permanente.
A mesma tecnologia que tornou tantas atividades mais simples colocou o jogo dentro de casa, disponível vinte e quatro horas por dia. Segundo estimativa da consultoria internacional Regulus Partners, divulgada pela BBC News Brasil, o Brasil tornou-se o quinto maior mercado mundial de apostas on-line em 2025, com receita estimada em cerca de R$ 22 bilhões, atrás apenas dos Estados Unidos, Reino Unido, Itália e Rússia.
É importante observar que esse valor corresponde à receita do setor e não ao total de dinheiro apostado pelos brasileiros. A dimensão do fenômeno aparece também no número de participantes. Em agosto de 2026, o Ministério da Fazenda informou que cerca de 40 milhões de pessoas estavam ativas e cadastradas no Sistema de Gestão de Apostas, o Sigap, que reúne os usuários das plataformas autorizadas no país.
A facilidade ajuda a explicar esse crescimento. Basta um celular e, em poucos segundos, é possível apostar no resultado de uma partida, no número de gols, no jogador que marcará primeiro ou em uma infinidade de acontecimentos de uma competição esportiva. As apostas de quota fixa foram legalizadas no Brasil em 2018 pela Lei nº 13.756. Em 2023, a Lei nº 14.790 regulamentou a exploração dessa modalidade e incluiu os jogos on-line. Desde 1º de janeiro de 2025, somente empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda podem operar nacionalmente, utilizando sites com a extensão oficial .bet.br.
O que nasceu associado principalmente aos resultados esportivos rapidamente ganhou enorme visibilidade. As marcas passaram a ocupar camisas de clubes, transmissões esportivas, estádios, programas de televisão e redes sociais. Apostar deixou de parecer uma atividade distante e passou a fazer parte do cotidiano de milhões de pessoas. O problema começa quando jogar deixa de ser uma escolha e se transforma em necessidade. As dívidas aumentam, famílias se desestruturam e a pessoa perde progressivamente o controle sobre o próprio comportamento.
Um problema de saúde pública
A medicina reconhece o transtorno do jogo como uma dependência comportamental. Na Classificação Internacional de Doenças (CID-11), da Organização Mundial da Saúde, ele aparece entre os transtornos devidos a comportamentos aditivos, caracterizado pela perda de controle sobre o ato de jogar, pela prioridade crescente dada ao jogo e pela continuidade dessa prática apesar das consequências negativas para a vida pessoal, familiar, social ou profissional.
Ansiedade, depressão, culpa e isolamento social podem acompanhar o quadro. Diferentemente das dependências químicas, não há uma substância envolvida, mas um comportamento repetitivo capaz de ativar intensamente os mecanismos de recompensa do cérebro, alimentados pela expectativa e pela incerteza dos resultados.
Referência nacional no tratamento da ludopatia, o psiquiatra Hermano Tavares, coordenador do Ambulatório do Jogo Patológico do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, resume a transformação provocada pelas apostas digitais em uma frase que se tornou emblemática: “É como se tivéssemos instalado um cassino em cada bolso.” A declaração foi dada em entrevista à revista Radis, da Fiocruz, em agosto de 2025.
A possibilidade permanente de apostar elimina limites de tempo e espaço que antes funcionavam como obstáculos naturais ao comportamento compulsivo. O prazer da aposta alimenta o conhecido mecanismo do “tentar outra vez”. Depois de perder, o jogador acredita que a próxima aposta poderá recuperar o prejuízo. Aos poucos, o comportamento deixa de ser recreativo e passa a interferir na vida financeira, afetiva e profissional.
Pesquisa desenvolvida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP reforça que a expansão das apostas esportivas constitui um problema de saúde pública no Brasil. Em sua tese Evolução e modernização recente dos jogos de azar e apostas: difusão das bets e usos do território brasileiro, defendida em abril de 2026, o geógrafo Leonardo Sena do Carmo analisa como a digitalização do mercado intensificou os problemas relacionados ao vício em jogos. Segundo a pesquisa, o investimento maciço em publicidade contribuiu decisivamente para a expansão das bets. Contratos com influenciadores digitais, celebridades, clubes esportivos e grandes veículos de comunicação ampliaram a visibilidade e a credibilidade dessas plataformas, aproximando a aposta do universo afetivo do torcedor e da cultura popular.
Leonardo Sena do Carmo chama atenção também para a invisibilização da ludopatia. Muitas vezes, o próprio jogador não se reconhece como dependente, e as pessoas ao redor só percebem a gravidade da situação quando surgem danos financeiros, emocionais ou psicológicos. A promessa implícita nas apostas é sedutora: transformar pouco dinheiro em muito dinheiro rapidamente. Quando a aposta passa a ser imaginada como solução para dificuldades financeiras, ela deixa de representar entretenimento e assume um risco social ainda maior, sobretudo entre pessoas que dispõem de menos recursos para suportar as perdas.
A equação é delicada. Ao mesmo tempo em que o país regulamenta e tributa uma atividade econômica legal, cresce a necessidade de reduzir os danos que ela pode provocar. O Ministério da Saúde registrou 10.553 atendimentos no SUS relacionados aos códigos de jogo patológico e mania de jogo e aposta entre janeiro de 2018 e maio de 2025. O próprio Ministério reconhece que esses números provavelmente não representam toda a dimensão do problema, pois muitos casos aparecem associados a outros transtornos mentais. Em agosto de 2026, o SUS ampliou o cuidado às pessoas com problemas relacionados aos jogos e apostas ao disponibilizar, pelo aplicativo Meu SUS Digital, capacidade para até 100 mil teleatendimentos mensais em saúde mental, incluindo também orientação e apoio aos familiares.
A perda financeira talvez seja o aspecto mais visível, mas raramente é o único. Reconhecer o transtorno do jogo como um problema de saúde significa reconhecer também a necessidade de acolhimento, tratamento e recuperação da autonomia da pessoa.
E os espíritos, podem ajudar?
Allan Kardec viveu no século 19, muito antes dos celulares, dos algoritmos e das plataformas digitais. Ainda assim, a questão moral envolvida pelo jogo não lhe era desconhecida. Em O livro dos espíritos, na questão 865, ele pergunta: como explicar que algumas pessoas pareçam ser favorecidas pela sorte no jogo, em circunstâncias que independem da vontade ou da inteligência? A resposta dos espíritos é interessante porque desloca o foco do ganho material para a experiência moral: a fortuna que favorece alguém pode constituir uma prova para o orgulho e para a cupidez. Em outras palavras, vencer no jogo não representa necessariamente um benefício para o espírito, mas pode transformar-se numa tentação.
Essa perspectiva oferece um contraponto profundo à cultura contemporânea das bets. O espiritismo não apresenta o jogo como caminho para o enriquecimento, nem a intervenção espiritual como instrumento para obtenção de vantagens materiais. O valor moral está na maneira como o indivíduo utiliza sua liberdade e enfrenta suas próprias paixões.
A Revista Espírita registra um episódio ainda mais curioso. Em julho de 1865, Kardec comenta o caso de uma pessoa que lhe escreveu de Hamburgo contando que havia perdido tudo no jogo e, sem recursos para partir, recorreu a um espírito, que lhe teria indicado um número. A pessoa apostou seu último florim, ganhou e conseguiu sair da dificuldade. Depois pediu a Kardec que publicasse o fato como prova da intervenção dos espíritos.
A resposta é esclarecedora. Mesmo admitindo hipoteticamente a intervenção espiritual naquele episódio, ele recusou transformar o caso em propaganda do espiritismo, afirmando que isso equivaleria a fazer propaganda das próprias casas de jogo. Kardec advertiu ainda que utilizar os espíritos para obter ganhos certos seria uma forma de fraude moral e jamais um objetivo da doutrina. Mais de cento e sessenta anos depois, a reflexão permanece atual. Não porque Kardec tenha falado das apostas digitais, mas porque discutiu exatamente a sedução humana de recorrer ao mundo espiritual em busca de riqueza fácil.
Liberdade e responsabilidade
Vista à luz do espiritismo, a questão das bets vai muito além de ganhar ou perder dinheiro. Ela toca diretamente o livre-arbítrio, o domínio das paixões, a responsabilidade pelas escolhas e as consequências dos próprios atos. A reflexão espírita dialoga com as dependências contemporâneas ao ensinar que liberdade não significa ausência de influências ou dificuldades. Ser livre é desenvolver consciência para reconhecer as próprias tendências e fortalecer a vontade na direção do bem.
O problema dos jogos e apostas, portanto, não está apenas no ato isolado de arriscar dinheiro, mas nas motivações e nos efeitos que esse comportamento produz. O que acontece quando a esperança de ganho passa a dominar o pensamento? Quando o dinheiro destinado à família é colocado em risco? Quando o jogador esconde perdas, contrai dívidas ou acredita que a próxima aposta resolverá aquilo que as anteriores agravaram?
Por trás das telas coloridas, dos bônus de boas-vindas, da publicidade incessante e da emoção de uma partida de futebol permanece uma pergunta essencial: até que ponto governamos nossos desejos ou permitimos que eles nos governem? Para o espiritismo, essa é uma das grandes experiências da existência. As provas da vida não têm por finalidade escravizar o ser humano, mas oferecer oportunidades de aprendizado, superação e progresso. E entre elas estão justamente as paixões, que podem impulsionar o crescimento ou conduzir ao desequilíbrio quando passam a dominar a vontade.
Como lidar com as paixões
Segundo as questões 907 a 912 de O livro dos espíritos:
• As paixões não são más por si mesmas; são forças naturais que impulsionam o ser humano à ação.
• Elas podem estimular a criação, o trabalho, a coragem e a superação de obstáculos.
• Tornam-se perigosas quando passam a governar a vontade, transformando-se em vício ou obsessão.
• O excesso pode abafar a razão e a consciência, comprometendo o discernimento moral.
• O objetivo não é destruir as paixões, mas aprender a educá-las e direcioná-las para o bem.
• O livre-arbítrio e a inteligência constituem os instrumentos pelos quais o indivíduo desenvolve o domínio de si mesmo e avança em seu aperfeiçoamento moral.