Fixação mental: a prisão que paralisa a evolução
Por Eliana Haddad
O trabalho do espírito para realizar sua evolução exige esforço, conhecimento e prática das leis divinas, sendo o autocuidado com a saúde mental um dos cenários mais promissores para viabilizar a realização desse progresso. É nos sentimentos e nos pensamentos que se travam as maiores batalhas da alma, e um dos aspectos mais desafiadores para se manter o equilíbrio é a fixação mental: obsessão por pensamentos, sentimentos inferiores e ideias repetitivas.
O quadro da saúde pública mundial indica hoje um território preocupante, onde o Brasil ocupa posição de destaque. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que mais de 1 bilhão de pessoas convive atualmente com algum transtorno mental. Segundo o Relatório Mundial de Saúde Mental, apenas no primeiro ano da pandemia, os casos de depressão e ansiedade deram um salto de 25%, estando o Brasil na liderança como o país mais ansioso, e à frente nos rankings de depressão na América Latina.
Reflexos no espírito e na sociedade
A busca pela saúde mental é de extrema seriedade tanto para o espírito quanto para a sociedade. Por trás desses números, o problema da fixação mental permeia silenciosamente inúmeros transtornos emocionais, mantendo em movimento essa engrenagem de dor e aflição, retratando o pedido de socorro de uma humanidade marcada pela pressa e pelo excesso de estímulos. Com a pressão de metas inalcançáveis e a imediatez da vida digital, acabou-se por esquecer como desviar o olhar do que incomoda e recuperar a paz, a conexão com Deus e consigo mesmo.
A fixação mental, de acordo com a Associação Americana de Psicologia (APA), é a base da ruminação negativa. Isso porque, na depressão, a mente trava em falhas do passado; na ansiedade, fixa-se em preocupações com o futuro. É essa rigidez que tem levado ao burnout – distúrbio emocional de esgotamento extremo – nos ambientes corporativos.
Há também a questão biológica. Como afirma Eric Kandel, Nobel de fisiologia em 2000, ao não renovarmos nossos pensamentos, estamos optando pela estagnação: “O pensamento repetitivo fortalece as sinapses quimicamente.” A notícia boa é que novos pensamentos criam novos terminais para os neurônios. “Cada vez que você aprende algo, a estrutura do seu cérebro muda ligeiramente”, escreve Kandel na obra Em busca da memória: o nascimento de uma nova ciência da mente (Companhia das Letras).
Também Robert Sapolsky, professor da Universidade de Stanford e especialista em estresse, destaca através de outro estudo que há mesmo um perigo biológico de manter pensamentos repetitivos e estressantes. “O estresse crônico e a ruminação mental podem literalmente matar neurônios no hipocampo, a sede da nossa memória”, explica.
A visão espírita
Enquanto os cientistas pesquisam o cérebro, o espiritismo vai na essência do problema: o espírito.
Na década de 1950, um alerta específico sobre o tema, envolvendo espíritos desencarnados, foi trazido através do médium Francisco Cândido Xavier, no livro Instruções psicofônicas (FEB), ao publicar a transcrição das gravações das mensagens espirituais recebidas no Centro Espírita Meimei, em Pedro Leopoldo, MG. No capítulo intitulado “Fixação mental”, o espírito Francisco de Menezes Dias Cruz (1853-1937), médico homeopata que sucedeu Bezerra de Menezes, em 1896, na presidência da Federação Espírita Brasileira, esclarece o outro lado da questão: “Enquanto a alma se demora no mundo físico, trabalha o cosmo mental, inclinando-o a buscar no bem o clima da atividade que o investirá na posse dos recursos de elevação.” O instrutor explica que todo bem é expansão, crescimento e harmonia e todo mal é condensação, atraso e desequilíbrio. “O bem é a onda permanente da vida a irradiar-se como o Sol e o mal pode ser considerado como sendo essa mesma onda, a enovelar-se sobre si mesma, gerando a treva. Ambos personalizam o amor que é libertação e o egoísmo, que é cárcere.” Ele lembra o valor da reencarnação como preciosa oportunidade de progresso, citando as palavras de Jesus: “Avançai enquanto tendes luz para que as trevas não vos alcancem, porque todo aquele que caminha nas trevas, marchará fatalmente sob o nevoeiro, perdendo o próprio rumo.”
A causa fora do corpo
A repetição exaustiva e automática de revolta, ressentimento ou desejo possessivo, portanto, consolida a fixação mental como uma dor da alma, que não pode ser compreendida apenas como transtorno psicológico passageiro ou determinação biológica, mas como uma condição particular que tem como causa o próprio ser espiritual, que compromete sua jornada evolutiva nesse processo. Sem contar que isso também abre as portas para os casos de obsessão, por atrair por sintonia vibratória espíritos pouco esclarecidos, também doentes, que acabam por intensificar a situação.
O espiritismo compreende a gravidade desse estado e oferece uma chave diferente, tanto para explicar, como para enfrentar essa dificuldade, e ainda descortina os mecanismos necessários ao espírito para a superação e a retomada da marcha rumo à sua liberdade.
O poder da vontade
Léon Denis ensina, em O problema do ser do destino e da dor (FEB), que a alma não é um barco à deriva, pois possui a força da vontade como leme para caminhar na vida. “A vontade é a potência soberana da alma. O uso persistente, tenaz, desta faculdade permite-nos modificar a nossa natureza, vencer todos os obstáculos, dominar a matéria”, assinala. Segundo o escritor e pensador espírita, a alma possui o poder de dirigir o pensamento. “Sem o exercício da vontade, o pensamento flutua e a alma se torna escrava das circunstâncias”. Ele explica que os pensamentos repetitivos criam formas e cristalizações que podem aprisionar o espírito. Assim, a verdadeira libertação ocorreria quando a vontade retoma o controle, limpando essas imagens mentais através da disciplina. Por isso, enaltece Denis, a importância do “vigiai e orai”. Vigiar, através do autoexame constante, não permite a degradação do pensamento, e orar possibilita a sintonização com fontes superiores para a renovação mental. Essa combinação atua como uma barreira preventiva contra a obsessão e o desânimo, que são formas de estagnação ou fixação da mente em camadas inferiores.
Libertar-se da fixação mental seria, portanto, o resultado de um trabalho consciente do espírito, um processo de educação constante para que a sintonia se faça com as leis universais do progresso.
O prolongamento da dor no além-túmulo
Relacionando-se as reflexões filosóficas de Léon Denis e a análise do instrutor espiritual Dias Cruz com todos os esclarecimentos expostos por Allan Kardec, na elaboração da filosofia espírita, percebe-se quão prejudicial é a mecânica da rigidez do pensamento humano. Isso foi comprovado pela sua observação, narrada por meio dos depoimentos dos próprios espíritos sofredores na segunda parte do livro O céu e o inferno. As experiências relatadas demonstram que o sofrimento no pós-morte é, fundamentalmente, um prolongamento desse estado de fixação, pelo qual o espírito sofre porque sua consciência está paralisada em seus próprios erros ou desejos.
O caso dos espíritos avarentos, por exemplo, é um dos mais didáticos. Desencarnados, permanecem em espírito vigiando tesouros, cofres ou propriedades que não mais lhes pertencem. Não percebem a vida espiritual ao seu redor, não por falta de merecimento, mas porque estão tão ligados à matéria e ao poder terreno que criam para si uma realidade onde o tempo parou. Isso faz com que o espírito não perceba a própria desencarnação, vivendo um pesadelo que pode durar um tempo variado, até que mude seus pensamentos e sentimentos, por cansaço ou pelo despertar através do auxílio de diálogos mediúnicos e vibrações amorosas que possam, aos poucos, romper a ideia fixa, uma prisão que eles mesmos podem dar um fim.
A fixação mental também atua na dor física ou no trauma do momento da morte,
transformando um momento passageiro em um martírio espiritual.
Kardec relata o caso impactante do espírito Antônio B., que persistia em sentir as angústias de sua última doença mesmo após o sepultamento do corpo físico. Para Antônio B., a agonia não havia terminado; sua mente estava fixada na última sensação de asfixia e dor, transformando um momento passageiro em um martírio espiritual.
Pureza do pensamento: higiene da alma
A fixação mental atinge seu ápice nos processos de vingança e ódio profundo. Ao fixar-se exclusivamente no ofensor, o espírito, encarnado ou desencarnado, perde a noção da própria responsabilidade pelo progresso. Ele vive e respira a ofensa recebida, e muitas vezes acaba por sofrer mais que seus desafetos, pois estarão ligados ao mesmo evento pelo pensamento repetitivo.
O evangelho segundo o espiritismo oferece o contraponto moral e as medidas práticas para romper essas cadeias. No capítulo 8, reforça que a pureza do pensamento é a base da higiene da alma, pois o pensamento define a nossa sintonia. A fixação em mágoas, desejos inferiores ou vaidades feridas provoca uma queda vibratória que nos sintoniza imediatamente com entidades que se alimentam desse mesmo padrão. No capítulo 10 da mesma obra, o perdão das ofensas é apresentado não apenas como uma virtude de beatos, mas como absoluta necessidade para a saúde mental e espiritual. Perdoar setenta vezes sete, portanto, significa o esforço contínuo e repetido de quebrar o circuito de ódio que mantém o indivíduo fixado no passado, permitindo que a energia mental volte a fluir em direção ao futuro e à cura.
Diálogos interiores
Para reconhecer se estamos entrando em um processo de fixação mental perigoso, devemos observar com honestidade a qualidade do nosso diálogo interno. Quando passamos a gastar a maior parte do nosso dia ‘conversando’ mentalmente com uma pessoa que nos feriu, ou quando a nossa mente gasta energia infinita tentando provar que estamos certos sobre um evento que já passou, a cristalização começou. Outro sinal de alerta é a perda de interesse por novos conhecimentos ou por conversas que não girem em torno da nossa própria queixa. A mente fixada torna-se egoísta e o antídoto para tudo isso é a prática da caridade desinteressada. A máxima “fora da caridade não há salvação” é a terapia espiritual que permite sair de si mesmo e focar na necessidade do próximo, desenvolvendo-se através da ação novas vibrações de gratidão e esperança.
Se o pensamento estacionou em uma zona de sombra, o corpo deve ser colocado em movimento no bem. O trabalho útil, o estudo e a prece são as ferramentas ideais que permitem que o espírito retome sua marcha, substituindo o tormento da prisão das ideias fixas pelo abraço das belezas do universo que o aguarda.