O futuro hoje, 40 anos depois

“Assim como Jesus veio para implantar no mundo o reino de Deus, Kardec o implantou no coração e na consciência dos homens.” - J. Herculano Pires

Por Jorge Rizzini*

Em 14 de julho de 1972, o escritor e jornalista Jorge Rizzini encontrava-se na casa do amigo Herculano Pires, em São Paulo, quando resolveu gravar uma conversa para ser divulgada no futuro. Tudo bastante informal. O objetivo era mesmo deixar um depoimento histórico para o espiritismo.

A divulgação do material inédito, por meio da Fundação Maria Virgínia e J. Herculano Pires, revela a visão realmente vanguardeira do jornalista e filósofo, um dos maiores defensores dos princípios do espiritismo. Com sua argumentação lógica e precisa e dezenas de livros e artigos publicados, Herculano mostra a atemporalidade da sua consciência liberta, através da entrevista, que publicamos a seguir. Acompanhe.

Se Herculano Pires estivesse no século passado, vivendo na França, e visse nas livrarias de Paris O livro dos espíritos, de Allan Kardec. Qual a impressão que teria após a leitura dessa obra?

Eu nunca pensei que tivesse oportunidade de falar para o futuro. Acho que é uma pretensão muito grande, mas em todo caso... No século passado, estive realmente na França, mas não era francês. Eu morava em Portugal e fui parar lá como exilado, onde tomei conhecimento do espiritismo. Mas não o aceitei, porque era católico, embora discordasse dos padres. Não aceitava muito o catolicismo e meu desejo era de encontrar uma forma de fazer o cristianismo voltar ao seu estado primitivo. Também era jornalista e isso ficou gravado em alguns jornais portugueses, o que me facilitou a verificação da realidade. Tive então a oportunidade de saber que estava se processando uma nova revelação. Continuei católico, mas um católico às avessas, em luta com o próprio clero. Não tenho certeza se vi algum livro espírita. Mas se tivesse visto O livro dos espíritos, em Paris, nesse dia 14 de julho, naquela época, na data da Tomada da Bastilha, certamente não teria o impacto que hoje me provocaria essa visão, pois não sabia ainda o que era o espiritismo, que realizaria meu sonho da volta ao cristianismo primitivo. Só depois de passar para o mundo espiritual tive contato pleno com a nova revelação. E foi no espaço que eu me tornei espírita. Quando vim para a Terra, portanto, nascendo aqui no Brasil, dessa vez em Avaré, SP, no dia 25 de setembro de 1914...

Um menino católico também...

... De uma família católica, tendo educação católica... Já trazia ideias espíritas bem acentuadas, que foram se revelando em mim, independentemente de qualquer influência exterior. Agora sim, se tivesse depois disso um encontro com O livro dos espíritos, seria uma grande emoção.

E se você encontrasse, nesta hipótese, por uma das ruas do centro de Paris, de súbito, ao dobrar uma esquina, a figura de Allan Kardec?

Se o encontrasse agora, depois que sou espírita, seria uma coisa extraordinária, porque ele representa para mim a figura exponencial dos novos tempos na Terra. Assim como Jesus veio para implantar no mundo o reino de Deus, ele o implantou no coração e na consciência dos homens, dos poucos homens que foram capazes de compreendê-lo até hoje.

Como você vê hoje a doutrina espírita em face da humanidade atual?

Vejo-a como a única solução para os problemas que afligem a nossa humanidade. Realmente é ela que traz o remédio para todos os males do planeta, porque indica os caminhos em todos os sentidos. Representa o alicerce de uma nova civilização, civilização do futuro para a qual talvez nós estejamos falando neste momento.

Como você vê o aspecto científico do espiritismo? A doutrina espírita responde aos anseios, às interrogações da ciência moderna?

Realmente, a simples pesquisa cósmica que se está fazendo neste momento já vem confirmar um dos pontos básicos do espiritismo. É o espiritismo no campo do pensamento moderno, a doutrina que afirmou a real existência dos mundos habitados no espaço. Isto bastaria para mostrar que encontramos no espiritismo uma antecipação muito grande a todas as conquistas atuais. Através da física atômica e da física nuclear, já estamos além da matéria, com a descoberta da antimatéria, que representa inegavelmente um rompimento de toda estrutura puramente materialista da física do século 18 e 19. Esses mundos de antimatéria no cosmo podem ser considerados como aqueles elementos que constituem o outro mundo, o mundo espiritual de que nos fala o espiritismo. Estamos em face de uma perspectiva inteiramente nova nas ciências e que vem confirmar princípios básicos do espiritismo.

Como você vê o espiritismo hoje, em 1972, em face da filosofia?

Realmente a filosofia espírita pretende renovar inteiramente a nossa concepção do mundo, da vida e do homem. Ela está na prática promovendo essa transformação. No nosso século, a filosofia característica é a chamada filosofia da existência, o existencialismo. Seu nascimento, por exemplo, se deu no meio protestante, com Kierkegaard. Mas seu desenvolvimento ocorreu na França, no campo católico, com Gabriel Marcel, e também na Alemanha, no campo protestante, com grandes pastores e pensadores. Na França, houve ainda o desenvolvimento dessa filosofia no campo do ceticismo, ligado ao ateísmo, que é a corrente que tem à sua frente Jean Paul Sartre. Quando investigamos, porém, o problema do existencialismo em relação ao espiritismo, vemos que este se antecipou mais de cem anos a essa filosofia. Não digo propriamente no seu aparecimento, porque Kierkegaard, praticamente um contemporâneo de Kardec, não fundou uma filosofia, mas apenas deu a ela as notas fundamentais que seriam desenvolvidas posteriormente. Portanto, o problema fora colocado, mas não desenvolvido. Ora, a filosofia da existência tem por finalidade examinar o problema do ser através da existência, uma investigação não apenas no campo do pensamento abstrato, mas diretamente no estudo do homem, o ser que está concretizado, manifestado na Terra, uma possibilidade de abordagem para o estudo filosófico do ser, podemos dizer, quase concreta. Essa tentativa da filosofia da existência, que inverte os termos da filosofia clássica, em vez de partir do exame dos problemas puramente espirituais para a indagação filosófica, parte da existência viva do homem na Terra – essa posição é precisamente a posição espírita.

E sobre o ponto de vista religioso? Qual sua visão em face do mundo moderno, das religiões atuais, em geral?

Assistimos àquilo que podemos chamar de uma verdadeira corrida do pensamento contemporâneo em direção aos princípios espíritas. Vemos as renovações que se passam no catolicismo, todas elas na direção da verdade espírita. Por exemplo, a teologia do padre Teilhard de Chardin, que foi quase fulminado pelos anátemas dos seus contemporâneos. Agora, no entanto, a Igreja está caminhando rapidamente para a aceitação de todas as suas teses. Ele nos parece, quando lemos o seu livro fundamental, O fenômeno humano, ou qualquer outro dos seus livros, um decalque, modificado um pouco para se adaptar ao pensamento católico, dos livros de Léon Denis, que foi o discípulo e continuador de Allan Kardec.

Você acredita então que, avançando como está pela amplitude do movimento espírita, o espiritismo irá dominar totalmente e as religiões irão desaparecer, em face das conversões do povo?

Eu não encaro precisamente assim. Acredito que a função do espiritismo, como, aliás, queria Kardec desde o princípio, é dar uma contribuição para a modificação das religiões, para a modificação da concepção humana a respeito da vida na Terra. Sabemos que o Espírito da Verdade, em suas comunicações com Kardec, e outros espíritos pertencentes à sua falange, deram grande importância ao problema religioso por ser fundamental. O homem que não está integrado numa concepção religiosa profunda não tem as possibilidades da evolução necessária. Entendo que o espiritismo não irá dominar a Terra, como uma forma religiosa, mas fará o que o cristianismo fez, com relação à transformação do mundo antigo, o mundo clássico greco-romano, modificando-o no campo da política, no campo jurídico, filosófico, das estruturas sociais, em todos os sentidos.

Mas com o espiritismo trazendo à humanidade uma nova cultura, uma nova visão de Deus, do destino, as religiões irão subsistir?

Acredito que as religiões podem subsistir. Não todas. Sabemos que uma característica do ser é a sua individualidade. Cada criatura humana é uma posição na corrente do tempo. Cada consciência humana tem, portanto, a sua própria posição diante da vida, do mundo e dos problemas humanos. Os homens nunca poderiam ser totalmente aglomerados numa posição única e essas diferenças individuais produzem também as diferenças de agrupamentos. Assim como, apesar do domínio do cristianismo durante os dois mil anos decorridos, vimos que ele se fragmentou em numerosas posições, acredito que a modificação produzida pelo espiritismo não irá estabelecer uma igualdade absoluta, mas criar a possibilidade de uma sintonia no tocante aos problemas fundamentais. Isto sim caracterizará a era espírita que, para nós, está surgindo agora no século 20. Acredito que realmente não haverá necessidade de insistirmos no domínio, por exemplo, do pensamento espírita, no sentido como nós o conhecemos hoje, para todo mundo.

Bem, Herculano, hoje, dia 14 de julho do ano de 1972 – até vamos dar a hora: exatamente às duas horas da madrugada –, vou pedir a você que dê a sua mensagem ao povo do futuro.

Acredito que essa gente do futuro será tão superior a nós, terá tantas possibilidades maiores diante dela, que dispensaria qualquer palavra de estímulo de nossa parte. Quero apenas saudar, nesses elementos do futuro, homens maravilhosos de amanhã que irão povoar não só o nosso país, mas todos os países do mundo, aurora do novo mundo que está raiando na Terra. E quem sabe, na esperança de estar também presente nessa humanidade nova, não estaremos participando daqueles que irão realmente efetivar na Terra a construção do reino de Deus, iniciada pelo Cristo há dois mil anos... Queremos dirigir também a nossa saudação à França de amanhã, à França que viu Kardec nascer, à França que viu o espiritismo nascer em seu seio, na cidade de Paris – que era então o cérebro do mundo –, à França que teve Léon Denis – aquele que Conan Doyle dizia ser um lutador contínuo através do espaço e do tempo –, de Gabriel Delanne, de Alexandre Delanne, do grande Flammarion, que anteviu a era cósmica com tanta grandeza. Queremos enviar daqui a nossa saudação à França do futuro, na esperança de que ela tenha readquirido seu elã espiritual e realmente feito jus à sua condição de berço do espiritismo ao mundo, de berço da doutrina que trouxe a nova civilização.

* Jorge Rizzini, médium, escritor e jornalista, desencarnou aos 84 anos, em São Paulo, 29 anos depois de J. Herculano Pires, e 36 anos depois de realizar esta entrevista, publicada, neste espaço, de forma reduzida.


Para ler a entrevista completa, e ouvir o áudio original, acesse www.herculanopires.org.br/entrevistaparaofuturo