O medo de morrer de Guimarães Rosa Premonição?
Por Redaçao
A posse do escritor e poeta João Guimarães Rosa na Academia Brasileira de Letras, ABL, em 16 de novembro de 1967, viu-se envolvida por um grande mistério.
O novo imortal era médico e diplomata. Já tinha adiado várias vezes, por quatro anos, a cerimônia de ingresso na Academia. Tinha receio de morrer após a cerimônia, pela emoção. Cardíaco, dizia não querer morrer cedo. Por isso, pediu ao então presidente da ABL, Austregésilo de Athayde (1898-1993), que suspendesse a sessão de posse caso levasse a mão à testa. Três acadêmicos, que também eram médicos, foram convidados a ficar de prontidão durante a posse, caso lhe acontecesse alguma coisa.
Com o salão repleto, apesar da forte chuva que caía na cidade, leu o discurso com perfeita dicção, voz pausada, ritmo perfeitamente certo. Tinha ensaiado perfeitamente. Mas, no fecho, quando leu aquelas últimas, admiráveis e misteriosas linhas sobre a morte, perdeu quase o fôlego. Sentia-se que chorava por dentro. Mas chorava o quê? Chorava a morte de um amigo que passara havia muito, ou a própria que sentia chegar?
Guimarães Rosa se tornou o novo escritor imortalizado pela Academia. Porém, o pressentimento do autor dos consagrados Sagarana e Grande sertão: veredas se confirmou. Três dias depois, um infarto colocou um final à sua produção literária por aqui.
O escritor revelou para o mundo o sertão brasileiro e sua gente. Identificado com a terceira geração do modernismo no Brasil e reconhecido por muitos como o maior escritor brasileiro do século 20, deixou frases memoráveis sobre sua percepção da vida. “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que a vida quer da gente é coragem”, escreveu. Há uma frase dele, muito citada, que parece resumir sua maneira de encarar a morte: “As pessoas não morrem, ficam encantadas... a gente morre é para provar que viveu”, disse em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras.
Guimarães Rosa deve ser visto não apenas como um grande romancista, mas como um pesquisador dos mistérios da existência humana.
O escritor Jorge Rizzini, autor do livro Escritores e fantasmas (ed. Correio Fraterno), afirma que muitos elementos da obra de Guimarães Rosa podem ser lidos à luz da sobrevivência da alma, da inspiração espiritual e da transcendência da vida, ainda que ele não tenha se apresentado formalmente como escritor espírita.