Divulgação, divulgação...

Por Antonio Carlos Molina


Ela estava de cama, serena. Fui visitá-la numa manhã. A doença tinha avançado, os prognósticos eram negativos e ela acompanhava tudo, conversava abertamente sobre o fim iminente. Com a intenção de confortá-la eu lhe disse: “Dona Virgínia, fique tranquila. Se a senhora tiver que partir, nós vamos cuidar do trabalho a que a senhora é tão devotada: o centro, a assistência espiritual, a assistência social...”. Ao que ela me respondeu: “Divulgação, divulgação...”

Assim foi a vida de Maria Virgínia Ferraz Pires, uma palestrante sobre a doutrina de Allan Kardec desde os 16 anos. Conheceu J. Herculano Pires aos 18 anos em um evento em Ipaussu, no interior de São Paulo, sua cidade natal, e viriam a se casar dois anos depois, em 1938.

Virgínia foi o apoio contínuo de Herculano. Dialogava com ele sobre todos os temas – doutrina, política, educação e profissão. Quando Herculano partiu, em 1979, ela abraçou a missão de manter viva a sua obra. Na mesa de trabalho dele, nos dias seguintes à sua desencarnação, ela se deparou com mais de dez originais de obras inéditas, a que Herculano se dedicou intensamente nos últimos anos de sua vida terrena, provavelmente já pressentindo a sua precoce partida, aos 65 anos.

Durante mais de vinte anos, Maria Virginia geriu sozinha, sem funcionário algum, a Editora Paideia, fundada por ele na década de 1970, num momento tormentoso do movimento espírita, quando as portas das editoras lhe foram fechadas, por combater com vigor a adulteração das obras de Allan Kardec. 

Virgínia sempre foi a primeira leitora dos escritos de Herculano. Ele levava para ela os textos e perguntava: “Que acha, Bi?” Uma vez, depois de ele reescrever mais de uma vez a seu pedido uma obra sobre mediunidade, ela lhe disse: “Ainda está muito complexo, tem que simplificar.” Ao que ele respondeu: “Eu me recuso, Bi. Eu escrevo para pessoas inteligentes.”

Virgínia foi também uma espécie de guardiã da memória de Herculano, organizou e conservou mais de dez mil documentos, textos, correspondências, recortes de revistas e jornais, filmes, gravações de áudio e vídeo, que hoje compõem o acervo da Fundação Maria Virgínia e J. Herculano Pires, instituída em 2001, na cidade de São Paulo, por seus filhos e amigos.

Divulgação, divulgação...

Antonio Carlos Molina é diretor executivo da Fundação Maria Virgínia e J. Herculano Pires (www.fundacaoherculanopires.org.br).