Conhecimento por etapas

Por Deolindo Amorim

Muita gente incorre no engano de pensar que o médium pode obter dos espíritos tudo quanto queira. E, por isso, há quem peça ‘mundos e fundos’, na suposição de que, sendo o médium um instrumento do mundo espiritual, pode captar facilmente todos os tipos de informações.

Se o médium, em muitos casos, se presta a certas solicitações vulgares, por ignorância ou até mesmo por inclinações individuais, corre o risco de ser envolvido em mistificação de espíritos que, por afinidade moral, se comprazem no engodo e no divertimento à custa dos que pretendem ‘explorar’ o mundo espiritual. Quem vive fazendo ‘cochichos’ para pedir indicações de negócios ou ligações interesseiras aos médiuns está sujeito a ser enganado, pois não faltam espíritos mistificadores.

Saindo, agora, deste ângulo, que é muito trivial e antipático, vamos considerar o assunto em termos de conhecimento e oportunidade. Nem tudo o mundo espiritual nos pode revelar ao mesmo tempo e como nós às vezes desejamos. O conhecimento é sempre dosado; na medida em que se tornam oportunos, é ensino cediço dos próprios mentores espirituais.

Um raciocínio simplista seria suficiente para nos dar uma ideia geral do problema: se o mundo espiritual nos desse, através dos médiuns, todo o conhecimento de que necessitamos, se as verdades viessem ‘prontas e acabadas’, naturalmente não haveria esforço nem mérito próprio. Além de tudo, a humanidade precisa passar por certas experiências de caldeamento espiritual, vivendo uns tantos dramas e passando por situações difíceis. Na medida em que chega o momento oportuno, o próprio mundo espiritual escolhe instrumentos humanos, aqui ou ali, para as grandes reformas e transformações. Mas o conhecimento, não nos esqueçamos disto, sempre nos chega por etapas, de acordo com o nosso desenvolvimento intelectual e espiritual.

Os espíritos, por sua vez, estão situados em faixas de conhecimento gradativo, como acontece na Terra entre os seres humanos. Há espíritos sábios e há espíritos que estão em grau primário de conhecimento. Ocorre-nos citar, a propósito, um episódio que se passou há tempos, durante uma sessão mediúnica.

Estudava-se um tema doutrinário, antes da parte mediúnica, como de hábito no centro, mas um dos componentes da mesa levantou uma dúvida a propósito de um ponto, sujeito a controvérsia. Então, resolveu-se pedir orientação ao guia espiritual, o orientador das sessões. No momento exato, o espírito respondeu que ele próprio não tinha condições de esclarecer o problema, mas iria pedir auxílio a uma entidade mais capaz, justamente um espírito detentor de outros conhecimentos.

Vê-se, pois, que a capacidade dos espíritos também é relativa, como a dos homens. Há espíritos verdadeiramente sábios e há espíritos ainda em nível muito limitado de conhecimentos.

Muitas vezes – e a experiência que o diga – temos necessidades, sinceramente, de pedir auxílio a espíritos familiares, para que nos esclareçam, quando sentimos que o nosso conhecimento é insuficiente. Nada demais nesta tentativa. Justamente porque reconhecemos a nossa incompetência é que recorremos aos mentores espirituais. Mas não se deve fazer disto uma regra trivial. Não! Os espíritos não podem dar o conhecimento já feito, já ‘trocado em miúdos’, pois nós precisamos aprender por esforço próprio.

Há ocasiões, lá uma vez por outra, quando surgem questões inegavelmente complexas, muito acima de nossas possibilidades, que são bastante acanhadas em muitos sentidos, é natural que peçamos as luzes dos mentores espirituais. Mas não devemos transferir aos espíritos o trabalho que nos compete realizar em busca do conhecimento.

Convém considerar, finalmente, que as revelações do alto obedecem a outros critérios, que não os nossos. Certas coisas são reveladas de acordo com as necessidades e oportunidades. Os espíritos orientadores não antecipam, não têm pressa em atender à curiosidade humana. A luz do conhecimento é sempre proporcional à esfera evolutiva e ao senso de conveniência. De uma coisa, em suma, podemos estar, todos nós, muitos seguros: a obtenção da sabedoria requer tempo, amadurecimento espiritual e trabalho constante.

Publicado originalmente na edição 71, de novembro de 1976.