Posso mudar o meu destino?
“Se o meu destino está nas mãos de Deus, por que as minhas escolhas importam?” –Alessandra Nogueira - Passos, MG
Uma das dúvidas existenciais mais inquietantes é saber se somos livres para guiar as nossas vidas ou se apenas cumprimos um roteiro predeterminado. Afinal, o destino pertence a Deus ou a nós?
A doutrina espírita e a filosofia de Léon Denis nos trazem uma resposta libertadora, ao mostrarem que o destino não é uma sentença definitiva, mas uma construção moldada pelas nossas próprias escolhas a cada minuto.
Para entender essa dinâmica, precisamos compreender que as leis divinas que regem o universo pertencem a Deus, mas a jornada individual da compreensão e cumprimento dessas leis pertence a cada um de nós.
Com leis sábias, eternas e misericordiosas, baseadas no amor, Deus nos concede o livre-arbítrio, permitindo que sejamos coparticipantes da Criação através das nossas escolhas. Se o destino estivesse inexoravelmente pronto e fechado, o homem não teria mérito pelo bem que pratica e nem responsabilidade pelos erros que comete.
Allan Kardec investigou bem como funcionaria essa engrenagem, depois de ter analisado a caminhada de diversos espíritos, através de relatos observados em comunicações mediúnicas (veja o livro O céu e o inferno). Depois, esses dados de experiências particulares foram passados pelo crivo da razão e da lógica para a formulação de uma teoria geral, a filosofia espírita publicada em O livro dos espíritos.
Na questão 851 da obra, ao indagar sobre a existência de uma fatalidade nos acontecimentos da vida, os espíritos respondem: “A fatalidade existe unicamente pela escolha que o espírito fez, ao encarnar, desta ou daquela prova para sofrer. Escolhendo-a, traça para si uma espécie de destino...”
Somos nós, portanto, que escolhemos as tendências e os desafios da nossa jornada terrena antes de reencarnar, visando o nosso próprio aprendizado para as conquistas morais. Todavia, a escolha das provas representa o “cenário” e não o desfecho da história, tendo em vista que podemos mudar o roteiro inicial, que não pode ser entendido como uma condenação determinista, definitiva, imutável.
Kardec reforça essa flexibilidade no comentário da questão 872, ao explicar que os nossos atos cotidianos não se submetem a linhas invioláveis: “Pode deixar de haver fatalidade no resultado de tais acontecimentos, visto ser possível ao homem, pela sua prudência, modificar-lhes o curso...”
Isso significa que o bem que praticamos hoje, o nosso esforço sincero pela mudança de atitudes e a nossa determinação em vencer os maus instintos têm o poder de atenuar ou desviar as coisas negativas que nós mesmos criamos no passado.
O que acontece é que, se o espírito absorve a lição moral através do esforço próprio na prática do amor, a dor perde a sua razão de ser pedagógica. A lei de Deus não é de castigo, mas de evolução. É assim que mudamos o nosso destino, como na escola, que, ao fecharmos as médias pelo nosso bom desempenho durante o ano, ficamos livres dos exames finais.
Léon Denis, em sua obra clássica O problema do ser, do destino e da dor, aprofunda essa realidade com imensa sensibilidade filosófica e rigor conceitual. No capítulo 22, define o destino, integrando as nossas ações passadas e presentes em um mesmo pacote de responsabilidade individual: “O destino é a lei da nossa vida, mas essa lei fomos nós mesmos que a fizemos por nossas manifestações anteriores, e nós a podemos modificar ainda por nossa ação presente.”
O destino, para Denis, se dobra diante de uma vontade firme e voltada para o bem. Ele explica que o passado nos impõe certas condições e limitações que muitas vezes rotulamos erroneamente como “fatalidade”, mas a nossa alma guarda uma força renovadora capaz de alterar o amanhã. Modificando o nosso panorama íntimo pelo estudo e pelo trabalho, alteramos a nossa vibração psíquica, atraímos melhores influências espirituais e transformamos, gradativamente, o ambiente e os acontecimentos ao nosso redor.
Em resumo, se o destino estivesse exclusivamente nas mãos de Deus, Ele seria também o responsável direto pelas nossas falhas, pelas quedas humanas e pelas desigualdades do mundo. A beleza da revelação espírita reside justamente em nos devolver o leme da existência para, pelos nossos esforços, resgatarmos a qualquer tempo o despertar espiritual em busca de uma vida cada vez melhor.