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Meu convívio com Ranieri e João Cabete

Cruzeiro, cidade paulista do Vale do Paraíba.

Por Gratus Servo

Era noite de setembro, por volta de 1975, quando o calor era suavizado pela brisa da chegada da primavera. O salão do centro espírita estava todo enfeitado e, as pessoas se acomodando entusiasmadas, aguardavam a palestra do orador da noite. Eu era um iniciante na doutrina espírita, mas já tinha conhecimento suficiente para participar do trabalho mediúnico no Centro Espírita Vicente de Paulo, na cidade de Cruzeiro, SP, onde seria realizada a palestra da noite. 

João Cabete

Era tempo em que o movimento espírita da região realizava, o “Mês Espírita”,  e o orador da noite seria João Cabete [1919 – 1987], que traria suas canções que falavam da natureza, de Deus em sua grandeza, e suas melodias que balsamizavam e beneficiavam a todos. Não demoraria muito para ele entrar, rodeado de amigos espíritas, sorridente, trazendo um violão debaixo do braço. Aquele foi o nosso primeiro encontro, embora já o conhecesse do cartório da cidade, onde residíamos, e onde ele era o tabelião. 

Tempos depois, numa visita ao Grupo da Fraternidade Carmen Cinira, instituição fundada por ele, alguns companheiros de ideal e familiares, na cidade, acabamos nos aproximando, o que nos deu oportunidade de gozar do seu convívio familiar. Conheci muitas histórias de como nasceram algumas músicas, da presença dos espíritos que vinham visitá-lo e inspirá-lo nas composições. 

Foi nessa época que conheci muitos espíritas, ligados ao Movimento da Fraternidade, como Jair Soares (esposo da saudosa Irmã Ló), Ênio Wendling, ambos de Belo Horizonte e  Rafael A. Ranieri [1920 – 1989], autor de vários livros psicografados, como Jerusalém libertada, pelo espírito Humberto de Campos, cujos originais, não se sabe por que, ficaram desaparecidos por 42 anos, até serem publicados. 

Rafael A. Ranieri

Tive o prazer de conviver com Ranieri, quase semanalmente, na sua residência (na chácara Ovo Azul), em Guaratinguetá, SP. Ele era muito disciplinado. Um verdadeiro romano. Como médium vidente, falava muito pouco sobre o que via. Como tudo tem uma razão de ser, as nossas amizades se consolidaram e comecei a participar das reuniões de efeitos físicos, realizadas na residência de João Cabete, tendo como médium a sua esposa, dona Ady. 

Era uma reunião reservada, formada por familiares, convidados, e algumas pessoas que necessitavam de tratamento. Os participantes giravam em torno de 15 pessoas. Os espíritos que se faziam presentes eram Scheilla, José Grosso, Palminha, Joseph Gleber, dentre outros. Tratamentos diversos eram realizados sob a orientação dos amigos espirituais, tanto presenciais como à distância.  Scheilla sempre trazia a fragrância de rosas e de éter que inundava o ambiente e a água dos vasos com flores, que enfeitavam o local. O cheiro permanecia ali por horas. Se colocássemos um pouco da água em um recipiente e tampássemos, o cheiro permanecia por dias. 

Os presentes ajudavam a preparar o ambiente cantando no início e no final da reunião as melodias de Cabete e músicas instrumentais e cantadas pelo Coral Irmã Scheilla gravadas também ajudavam na harmonização. A sala era sempre rigorosamente preparada, inclusive para que não entrasse nenhum facho de luz. O silêncio dos participantes era também atentamente respeitado.

Durante a reunião, os espíritos se faziam presentes e administravam todo o tratamento a ser realizado. Através da materialização, luzes cruzavam de um lado para o outro, como uma bolinha de pingue-pongue, iluminada e colorida,  alternando entre o azul, verde claro e branco fosco. 

Após a reunião, um chá era servido,  no ambiente muito alegre e festivo. Se deixassem, virávamos a madrugada, falando de espiritismo e fazendo comentários sobre a reunião e os aprendizados da noite. 

Tudo isso é parte de um passado muito prazeroso!

*João Cabete foi reconhecido por seu talento musical.  Compôs mais de 200 canções espíritas, dentre elas: Alma das andorinhas, Além das grandes estrelas, Fim dos tempos, Gratidão a Deus, interpretadas até hoje por inúmeros grupos musicais.

*Rafael A. Ranieri deixou registrado em seu livro Materializações luminosas (Lake) o que viu, ao participar de reuniões de efeitos físicos em torno de 1950, na presença do médium Peixotinho, que marcou a história do espiritismo no Brasil com sua expressiva capacidade para fenômenos de materialização.

Meu primeiro contato com a materialização

O médium Peixotinho tornara-se meu conhecido em Belo Horizonte dois ou três dias antes da reunião; não conhecia minha família nem sabia se eu possuía ou não filhos. Não viu nenhum retrato de filhos meus. No entanto, entre os espíritos que se materializaram em forma luminosa, apresentou-se o espírito de minha filha Heleninha, que com dois anos de idade “morrera”, no ano de 1945. Na mesma estatura, em voz semelhante, dirigiu-se a mim dizendo algumas palavras de saudação. Deixou-me uma flor como lembrança, ainda fresca e cheia de orvalho.

Embora pareça inconcebível, não me emocionei com a presença dela e pude dirigir-lhe calmamente a palavra.

Era realmente ela, sem deixar dúvida alguma. José Grosso, outro espírito que se materializou, atirou numerosas pedras sobre os assistentes alegremente, em plena escuridão. Atirava-as e gritava o nome do destinatário. A pedra caía aos pés da pessoa indicada sem contudo atingi-la ou molestá-la.

É quase certo que nenhum homem seria capaz de atirar dez ou doze pedras no escuro, sobre uma assistência numerosa para o tamanho do recinto, e com a violência com que foram atiradas sem ferir alguém. Além disso, os espíritos materializados improvisaram “quadras” e pronunciaram discursos sérios de convocação ao homem do mundo atual.

Coisa maravilhosa era ver como os espíritos se dirigiam com imenso carinho ao Chico Xavier, dando-lhe a importância que deve ter perante o mundo invisível.

Esse foi o primeiro contato que tivemos com fenômenos de materialização.

R.A. Ranieri

Materializações luminosas, depoimento de um delegado de polícia, R.A. Ranieri, FEESP.